
Era só festa, sábado agora, dia 28, no Apê. A bela Dama, senhora Dulce Métri aniversariava. Tout le monde et son père lá estava para homenageá-la. Rodeada de gente querida, ela brilhava, em seus gloriosos noventa e seis anos. Destaque para as bisnetas Mariana, Laurinha e Luisa. O cronista da família, em certo momento, notou que, apropriadamente, o ectoplasma de Jorge Métri circulava, enternecido com a alegria da festa e com a beleza de sua amada. Ele estaria completando noventa e nove anos, amanhã, dia 31 de Maio. Jorge e Dulce foram como “Os Cisnes” de Júlio Mário Salusse (1872-1948):
A vida, manso lago azul, algumas
vezes, algumas vezes mar fremente,
tem sido para nós, constantemente,
um lago azul, sem ondas, sem espumas.
E nele, quando, desfazendo brumas
matinais, rompe um sol vermelho e quente,
nós dois vogamos indolentemente
como dois cisnes de alvacentas plumas.
Um dia, um cisne morrerá por certo.
Quando chegar esse momento incerto
no lago, onde talvez a água se tisne,
- que o cisne vivo, cheio de saudade,
nunca mais cante, nem sozinho nade,
nem nade nunca ao lado de outro cisne.
Como casamento é mortalha, que no céu se talha, ambos nasceram no mesmo mês (ele – 31-05-1912), (ela – 23/05/1915). Encontraram-se e casaram-se muito jovens e foram felizes para sempre. Quando ele foi chamado a viver em outra dimensão em 23-06-1995, escrevi:
“Não, a morte não é o ponto final – é virgula. Pelo menos para o homem de fé”. João Manuel Simões
Se você me perguntar como está o Rio, eu respondo :
- Está tudo igual. Um calor delicioso. Está tudo bem. A praia, cheia. Os bares, lotados. Lá em casa de Dona Dulce, a rotina de sempre. Boa comida, prosa agradável, o entra e sai de filhos, noras e netos. O tererê de sempre.
Passei lá quatro dias. Sentei-me à cabeceira da mesa, isto é, no lugar dele. Uma deferência? Uma coincidência? Na sala da televisão, acomodado na “longue chaise”, a mesma na qual ele se despediu, notei que sobre a mesa de trabalho continuam os objetos dele, as fotos dos netos, a seleção de livros que estava lendo. No assoalho, os chinelos dele.
Sexta-feira a noite veio em visita o casal de sobrinhos – Vany e Raul. Com ele conversei horas. Somos diabéticos, ele em alto grau. Evocamos muito Seu Jorge, falamos da nossa doença, de crianças – Dr. Raul é pediatra.
Dona Dulce está com ótima aparência. Alimenta-se inteligentemente, vai à rua mais de uma vez por dia, dá suas ordens em casa, atende e faz várias ligações telefônicas, espia a televisão, ouve a CBN – está sempre por dentro dos assuntos do dia.
Olha, se não fosse pela ausência dos comentários que ele sempre fazia, cada vez que desviava os olhos do livro ou do jornal…Seu Jorge foi, mas ficou, seu espírito continua presidindo o ambiente daquele lar, sempre sereno e acolhedor.
“Só a prece nos dá inspiração e compreensão da vida espiritual”, são palavras que seu Jorge sublinhou em um dos seus livros.
Sua biblioteca abriga mais de mil volumes, lidos, anotados, bem conservados, separados por assunto e por autor. Lia de tudo. Mas seu interesse maior repousava nas obras da doutrina da reencarnação. Seus estudos espíritas abrangiam os mais diversos autores, desde Allan Kardec, a Camille Flamarion, Pietro Ubaldi, Pierre Van Paassen, Daniel Rops, João Nunes Maia, Chico Xavier, e muitos outros. A curiosidade intelectual de seu Jorge sempre me fascinou. Lia Aléxis Carrel, Monteiro Lobato, Carlos Lacerda, tantos, tantos. Tinha predileção por Santa Tereza de Ávila.Conhecia profundamente os textos bíblicos, que citava de cor.
Era estudioso da Política e costumava comentar os eventos nacionais e internacionais sob uma visão filosófica, relacionando os eventos a profecias dos seus estudos do espiritismo científico.
Jorge Elias Metri. Um ser humano de escol. Conhecê-lo foi para mim um privilégio. Como foi um privilégio para toda e qualquer pessoa que privou do seu convívio. Tinha uma riquíssima vida espiritual. Ana Médici o considerava seu segundo pai. Era Juja para cá, Juja para lá, o tempo todo. Paulo Cesar e Jorge Carlos, seus filhos, encontravam nele a calma, a sobranceria, a temperança – virtudes que seu Jorge, sutilmente, procurava lhes incutir.
Os netos, a pequena Carolina, e os rapazes Rafael, Maurício e Marcelo, vão se lembrar dele como um exemplo de bondade, compreensão e caráter. Marcelo, o mais velho dos netos teve a oportunidade de ouvir as últimas palavras do avô querido.
Mas é Dulce Metri, a viúva, quem realmente mais lições e alegrias espirituais recolheu, na convivência de sessenta anos de vida conjugal. Dona Dulce era, e certamente é, o centro das atenções de Seu Jorge. Tive sempre constante e renovada admiração e me comovia o carinho, os cuidados, a dedicação de Jorge Elias Metri para com Dona Dulce.
Discreto, humilde, autêntico e consagrado “Chevalier servant”, ele a tratava como a uma rainha. A sua rainha.
Tenho a certeza de que, de onde está, Seu Jorge não se descuida um só momento de Dona Dulce. Antes de partir, pediu a ela, expressamente, que lesse e guardasse as seguintes palavras:
“ A vida não termina onde a morte aparece. Não transformes saudades em fel dos que se foram. Eles seguem contigo, conquanto de outra forma.”
É isso aí. Ele continua com ela. Ele, Seu Jorge foi, nas ficou.
LOUVADO SEJA DEUS !
RUBENS NOGUEIRA
03/08/1995
Post Scriptum – O texto de 1995 foi como uma carta dirigida a Ana Médici, falecida em dezembro de 1993.
Eu sou o Universo. Você e eu somos a mídia.