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Tigre, 29/01/90
Queridos Rubens e Ana Maria :
Depois de receber de Santiago, por re-envio um cartãozinho de Natal (equivocado) porque era para o Waldo e Maria Luiza, que devem ter recebido o nosso (!) recebemos também os livros com a cartinha falando da possível viagem da Regina e da apresentação do teu 2º livro, Rubens! Meus parabéns! Custou, mas deslanchou! Agora parece que vai ser um livro por ano! Muito bem! Te agradeço pela dedicatória e faço votos que seja um êxito. A coincidência com o aniversário do Marcio foi ocasional ou proposital? De todos os modos é interessante e comovedor, não é mesmo? A mim me deu vontade de chorar. Mas, de alegria, naturalmente. A gente vai ficando velha, vai ficando mais sentimental!
A Vera está muito encarinhada com a Ana Maria e com a conversa longa que teve com ela por 1ª vez. Acho que humanamente falando, a Vera ganhou muito com essa viagem tão rápida. A Anita também está assanhada para viajar e “ameaça” vir até aqui. Não sei se conseguirá, pobre. Anda sempre tão curta de dinheiro! Mas, sempre tão cheia de planos, de animação, de coragem! É impressionante.
Que é que você sabe do Márcio, Rubens? Parece que ele não anda muito feliz. Gostaria de saber se você tem algum contato com ele, que não me escreve desde 1988!!! Apenas assinou bilhetinho da Ana, de fim de ano, que se vê que foi ela que pediu. Enfim, qualquer coisa que você saiba, comunique-me por favor.
Estamos aqui na nossa casinha de madeira, nas margens de um rio do delta do Paraná, pertinho de B.A. Cansei do calor de Santiago. Talvez passemos a viver aqui. Queremos experimentar. Não há luz nem telefone, mas há um lindo cenário, muita paz e tranqüilidade.
De Posadas, se Deus quiser vou telefonar para vocês.
Beijos,
Maria Luiza
P.S.1 – Os livros são lindíssimos. Muito, obrigada.
Nosso endereço
Família ALBA
Rio Carapachay
Muelle Pequitas
1ª sección Islãs – Tigre
CP 1648
Pcia. De Buenos Aires
P.S.2 – A correspondência chega bastante rápido. Já recebemos carta de Vera, de Regina e de Ana diretamente para cá!
Maria Luiza
Sgo. Estero, 11/12/89
Queridos Rubens e Ana Maria,
Quero que vocês saibam que Alberto e eu nos regozijamos com o êxito do tratamento da Ana, a publicação do livro, e os planos que vocês tem de reunir mais uma vez a família para um Natal próximo. Acho tudo isso maravilhoso; só espero que todos estejamos emocionalmente à altura de semelhante esforço de amor e expectativa.
A Vera veio e se foi. Mas, foi lindo e desfrutamos momentos de intensa ternura, de paz e de genuína alegria. Até hoje me dura a euforia de havê-la visto baixar do avião e entrar na sala onde se esperam as malas.
Agora chegam as festas e de longe com muito carinho lhes mando meus votos de felicidade. Não vamos poder ir ao Brasil este ano. Vamos passar o verão no Tigre. Em março dou um curso de Literatura brasileira na Universidade de Misiones ( em Posadas) e espero poder ir a visita-los. Estarão aí, não?
Tudo de bom para vocês.
Saudades,
Maria Luiza
P.S.1 – Vou conversar com você, Rubens, sobre a minha “famosa” aposentadoria, quando for aí.
P.S.2 - Tens algum livro bom sobre Guimarães Rosa? Me lo podias mandar al Tigre?
Maria Luiza
Santiago del Stero, 24/8/86.
Prezados Rubens e Ana Maria,
Espero que tenham aproveitado bem a viagem a Bariloche, que eu ainda não conheço. !!!!
Fiquei esperando que me telefonassem de B.A., mas não recebi o chamado de vocês. Que passou? Aqui o nosso telefone é 221063 e o código de Santiago é 085 e 0 da Argentina vocês já sabem.
O motivo desta carta é esclarecer como se fará para trazer a Regina e família ao Brasil no fim do ano. Recebi uma cartinha dela este fim de semana e ela ainda não sabe quando vai receber as passagens. Há necessidade de uma certa antecipação, para que eles possam arrumar a vida deles, ir a Londres, etc…
Como vai ser? Vocês vão pagar as passagens para ela, Jim e as crianças? Se é você, Rubens, quem vai comprar as passagens, escolha o plano menos de 30 dias, porque eles só poderão ficar 2 semanas, por causa do Jim que precisa trabalhar para pagar a hipoteca da casa. A Vera também só poderá ficar uma semana, porque as férias de Natal são curtas nos States. De modo que a reunião da família tem mesmo de ser na semana de 21 de dezembro a 3 de janeiro.
Escrevam-me explicando qual é a idéia de vocês. A situação do Marcio e da Ana não dá para eles contribuam com nada. Eu ando bastante curta de dinheiro, e só saberei ao certo quanto te poderei oferecer quando chegue ao Brasil e veja quanto tenho do aluguel da casa de Teresópolis.
Não demorem em responder-me porque as cartas levam + ou – 20 dias para chegar a Stgo, mesmo sendo aéreas. É que vão para B.A. e depois são distribuídas para o interior. Há também a possibilidade de vocês escreverem para B.A., onde estaremos entre 5 e 15 de setembro. A direção seria Uruguay, 572 – 6ºpisoA a nome de Alberto Alba. ( B.A.).
Esperando que estejam bem e felizes aqui ficamos aguardando notícias.
Maria Luiza
- Santiago Del Estero fica a uns 400 quilômetros de Buenos Aires.
Em janeiro de 86, na casa da Ana Maria, em Itaquera, São Paulo, a partir de uma carta de Regina, muito saudosa, tramamos uma reunião da família, entre o Natal e o fm do ano, em Piedade, S.P., na casa de minha Irmã Nena. Foi um encontro memorável. Pela primeira vez, em muitos anos, convivi com todos os filhos, genros, nora, irmãos, sobrinhos, cunhados, ex-mulher, mulher atual, umas quarentas pessoas. Como disse na ocasião, só faltou Dona Elza!
- O português de Maria Luiza nesta carta, mostra bem a influência do castelhano.
Santiago del Estero, 15/1/88
Queridos Rubens e Ana Maria,
Ainda sob o impacto do envio do telegrama e do telefonema, escrevo para explicar o porque da angústia da Aniska. (Ana Maria).
Todo este ano que passou, estive sob o impacto da desagradável atitude que teve a Julieta para comigo e para com minhas filhas e a ameaça de Márcio de deixar sua família. Aquela linda festa de Natal, para a qual fizeste um esforço hercúleo e que, felizmente, te deu muita felicidade, para mim foi um esforço emocional desgastante. Ao ficar na casa da Marilda, que foi excelente anfitriã e seu marido, um verdadeiro “gentleman”, me isolei muito da Vera, com quem queria tanto conversar e das crianças todas. Com a Regina já havia estado uma semana + ou – na casa do Marcio. Mas o pior é que não podia, nem sabia como reagir às agressões da Julieta e não entendia o porque da sua atitude que fez a minha permanência na sua casa impossível. Em resumo, sofria todo o tempo e disfarçava o mais possível, o que para mim é um esforço e um sacrifício.
Depois, no Rio, fiquei na casa da Aurora e vi a Ana e a Vera muito pouco. Também fiquei doente com uma bronquite e tive que ir ao médico e tratar-me durante duas semanas. Não consegui nem ir à praia, nem passear, nada. Também achei que a Ana e o Toninho e seus filhos sofreram muito durante aqueles dias em Piedade. Havia como um isolamento, um preconceito mudo, mas atuante, em relação aos “negrinhos”. As crianças da Ana estavam nervosas e inseguras. O Toninho meio abandonado, fazia o possível para agüentar a discreta discriminação de que era objeto. Graças a Deus você estava tão feliz que não percebeu nenhuma dessas amarguras. Melhor assim. Você merecia gozar daquela festa e receber daqueles dias toda a gratificação possível.
O resto do ano passei amargurando o fato. Me sentia mal anímica e fisicamente. Busquei ajuda de um psiquiatra e ainda estou tomando uns tranqüilizantes suaves para ajudar o meu sistema nervoso. A Ana ficou muitos meses sem escrever e o Márcio também. Em agosto, em desespero por notícias fomos até Uruguaiana para telefonar ao Márcio e aí soube que havia nascido o Leonardo e que ele decidira permanecer com a família. Isso me tranqüilizou bastante, mas não sabia nada da Aniska. Pedi ao Marcio que a visse, que me desse notícias dela.
Finalmente em novembro foi que recebi cartas do Marcio com as fotos lindas do bebê e da Amaraji, com ele e a Julieta. Depois uma carta da Ana contando um pouco das suas muitas dificuldades. Respondi aos dois. Mas as cartas daqui demoram muito, por isso lhes escrevi de novo, de Buenos Aires, porque passamos parte de novembro e todo o mês de dezembro no Tigre. Não agüento o calor desta cidade de Santiago. Chegamos aqui no domingo passado porque Alberto recebe sua pensão de aposentado aqui e estamos aguardando uns pagamentos que lhe têm que fazer por livros que ele está imprimindo.
Já na próxima semana devemos voltar ao Tigre, e, conforme o dinheiro de que podemos dispor, vamos ao Brasil. Tenho que ver o que faço com a casa de Teresópolis. O Fernando Serra Lima, cunhado do Carlos Baptista Lopes, não me pagou o aluguel desde o mês de junho inclusive e quero pelo menos reaver as chaves da casa. Esse fato me desfalcou financeiramente e também a falta de traduções para editora Globo, que foi vendida e despediu todo o antigo pessoal com quem eu tinha contacto.
Não me animo a ir a casa do Marcio e não tenho notícias nem do João, nem do Eduardo, de modo que não sei aonde ficar em São Paulo. Por isso quero ir com algum dinheiro para poder procurar um hotel. Telefonar aqui da Argentina é um problema. Não há discagem direta e custa caríssimo. Quando chegar a Uruguaiana me comunicarei por telefone com você, com a Marilda se possível e com o Marcio. Quero ir primeiro a Registro, ver a Ana e depois resolvo o que vou fazer. Na verdade eu preferia ir em março, porque não faz calor, as férias já terminaram e o Alberto já terá também terminado os livros que está imprimindo. Vamos ver. O nosso endereço em Bs.As. é o de Tacuari 779 – 1º piso, onde ainda temos o escritório da Editora. Em Santiago o nosso endereço é Peru 197 1º C. Não temos telefone, mas o vizinho, o Sr. Corvalan tem e nos pode chamar. Eu não uso quase o seu telefone para não abusar.
Estou bem com o Alberto e melhor fisicamente, mas ainda não me sinto 100%. Há uma enorme tristeza em mim e deve ser o afastamento tão prolongado dos filhos e dos netos e a impossibilidade financeira de ir a visitar a Vera e a Regina e também os que estão no Brasil. Mas esta é uma fase que vou superar aos poucos e espero recuperar-me inteiramente.
A atenção que você teve para comigo me ajudou muito e o saber que a Ana e creio que os outros filhos também se preocupam comigo representou um grande estímulo para o meu espírito.
Quando chegamos aqui de volta a Santiago tive uns contratempos com a pessoa que me havia cuidado o apartamento e isso foi bastante desagradável, mas já passou.
Agora estamos limpando e arrumando tudo, para podermos voltar ao Tigre tranqüilos. Ontem houve um tremendo temporal à noite. Ficamos sem luz e sem água e não me foi possível escrever. Hoje o dia está nublado e não faz calor, felizmente.
Espero que você e a Ana Maria estejam bem e que 1988 seja um ano de paz e tranqüilidade.
Muitos carinhos e outra vez te agradeço as atenções que têm para comigo.
Afetuosamente,
Maria Luiza
- Marilda e André – Ela é minha sobrinha, filha da Nena.
- Tigre é um bairro de Buenos Aires
- Carlos Baptista Lopes e Luiz Baptista Lopes, são filhos de Esther França Campos, que foi casada com meu sogro João Alves de Moura.
- João Moura Jr. E Eduardo Moura, filhos de João Alves de Moura, são irmãos, por parte de pai, de Maria Luiza.
Santiago, 10/3/88
Queridos Rubens e Ana Maria,
Só um cartãozinho para comunicar a vocês que no dia 2/3/88 nos casamos, Alberto e eu.
Demorou, mas conseguimos, depois que saiu a lei do divórcio aqui.
Por motivos de saúde do Alberto, que anda com um grave problema de coluna, tivemos que adiar a ida ao Brasil. Se Deus quiser nos veremos na época da Páscoa. Avisaremos! Abraços,
Maria Luiza
P.S. – Que notícias você tem de Ana, Rubens? Acho que ela deve estar mal de vida. Você não foi visitar? E a Vera? Faz tempo que não tenho notícias. A telefônica está em greve há meses e é um inferno tentar telefonar. Escreva-me para : Galeria Tabycast local 18 aqui em Santiago, que é o nosso endereço comercial.
Saudades,
Maria Luiza
5/9/83
Prezada Ana Maria e Rubens,
Recebemos hoje a sua carta cheia de boas e lindas notícias, que nos alegrou muitíssimo. Deus os abençoe e cubra de bênçãos materiais e espirituais para que continuem assim, felizes e generosos, estimulando o amor e o reconhecimento dos que são objetos de seu carinho e atenção.
Fiquei contente em saber que você já viu a filhinha do Marcio, Rubens, e que visitou Ana. Ela principalmente precisa demais do seu apoio moral e de sentir-se amada. Também precisa de ajuda financeira, mas o fato de você visitá-la deve ser feito ela sentir-se novamente aceita por você, que é muito importante para o seu auto-respeito. Ela tem tido muitos problemas de ajustamento com o marido, mas ambos tentando resolver as coisas dentro do carinho que os une, num esforço para conquistar essa coisa tão difícil que é viver juntos em harmonia. Muitos dos desacertos dos dois em matéria de trabalho e finanças têm sido conseqüência da insegurança emocional dos dois e do isolamento de Ana em relação a você e a mim. Ela também me escreveu, animadíssima, com a sua promessa de ajuda de ajuda para comprar a casa. Que coisa maravilhosa que você possa e queira ajudá-la nesse momento tão importante da vida dela. Estou muito feliz com isso e quero que você saiba o quanto aprecio esse gesto seu e a colaboração de sua esposa. Eu acho que a Ana merece pelo muito que já padeceu, pela luta que enfrentou, pela coragem que tem de reconhecer os próprios erros e principalmente pela bondade do seu coração generoso e forte.
Vera também já me havia escrito sobre o sitio. Agora que o Tom perdeu o emprego da Helena Rubinstein a sua ajuda veio a calhar. Espero que ele reconheça. Em todo o caso, você o fez pela Vera, mais que nada, que é uma pessoa de caráter, uma verdadeira jóia de pessoa, íntegra, firme e ajuizada.
Marcio escreveu também, mas só me contou do nascimento da Amaraji, com quem está absolutamente deleitado. Acho que ele vai ser o pai mais dedicado do mundo!
Regina está enfrentando uma vida dura, sem ter quem a ajude no serviço da casa, com duas crianças pequenas e e mais o filho do Jim. Mas, parece que o Jim é uma excelente pessoa. Ele comprou essa casa antiga para ela e a está remodelando nas horas vagas, esforçando-se ao máximo para dar à Regina o que de melhor pode conseguir. Só lamento não ter estado lá quando ela deu à luz, porque a costuraram a sangue frio, sem anestesia, o que me pareceu uma selvageria.
Assim que vocês vão à Europa! Meus parabéns um tanto “invejoso”! Esta é uma linda época para ir. Já faz um pouco de frio, mas ainda é um frio agradável de principio de outono. A Joana vai ficar muito contente em vê-los e o Marcos também. Ele já tem 2 filhos! A Ângela também tem dois, mas não sei se estará em Genebra. O endereço da Joana é 25 chemin François Lehmann (apt. 21) ( sobe-se pela escada porque é um 1º andar) o bairro chama-se Grand-Saconnex e fica bem perto do aeroporto, não chega a dez minutos. Se quer escrever o código é 1218. O telefone é (004122) 981084. Vocês podem até ficar hospedado lá, penso, a não ser que não lhes convenha, por ter hotel reservado.
Espero que esta carta chegue a tempo. Total, você ainda tem tempo; as cartas levam mais ou menos dez dias daqui para aí, o que é realmente um absurdo.
Adorei as fotos. Muito obrigada.
Nossas notícias são poucas. Encontramos um apartamento antigo, com peças grandes e arejadas numa avenida muito bonita que tem vista para o rio Paraná. Estamos aos poucos comprando os móveis necessários, já que eu havia vendido todos os meus antigos! Alberto está trabalhando muito e já pagamos 9.000 dólares da máquina IBM. Ainda falta pagar, mas temos esperança de conseguir isso com esforço e dedicação. A obra literária de Alberto está sendo lentamente reconhecida, já que ele não se promove, mas alguns críticos e um membro da Academia de Letras já ficaram entusiasmados e lhe escreveram a respeito, o que muito o alentou para continuar escrevendo. Eu, por incrível que pareça estou escrevendo poesia e contos !!! Algumas das coisas que tenho feito estão boas e têm tido aceitação de pessoas idôneas.
Estou contente. Parece-me que inicio, aos 57 anos, uma nova vida. Dou classes particulares e cuido da casa. Não temos empregada, mas estamos bem e nos sobra para ir a concertos e alguns espetáculos de vez em quando. A vida está difícil aqui, mas vamos vivendo modestamente e felizes. A única coisa que quero é poder no ano que vem visitar a Regina. No mais, tudo bem.
Um grande abraço para vocês e muitas, muitas alegrias em sua viagem!
- Ana Maria, primogênita, sofreu mais com a separação. Tinha onze anos.
- O sítio, em Bom Jardim, perto de Nova Friburgo foi doado por Maria Luiza à Vera. Por minha culpa, quase foi perdido.
- Em 1983 fui pela terceira vez à Europa. Estive na casa de Joana em Genebra. Ela é viúva de Luiz Carlos Weil, amigo e compadre.
- A casa de Jim e Regina é mais do que centenária. Toda de pedra. No país de Gales. Ainda não fui lá.
- Alberto Alba é poeta e contista. Seu livrinho ! Corte de la memória! É muito interessante.
Posadas, 3/11/80
Prezado Rubens,
Recebi sua carta sobre a chegada da Vera e família. Fiquei surpresa com a resolução da Elza, mas talvez seja mais sadio para ambos, quem sabe? Há duas coisas que não entendo! O silêncio do Márcio que não escreve nem no meu aniversário e a Vera que reclamou da minha “frieza” na sua chegada! Será que nunca os filhos ficam satisfeitos com a gente? Quando eu soube do dia certo da chegada já era praticamente o próprio dia. E devia ser evidente que os amo, pelo que tenho me preocupado com eles. Como podem reagir assim? O Márcio está trabalhando em que? É com a Myriam, de apontador de obra? O que é? A Ana Maria me escreveu só uma vez. Eu lhe mandei um cheque de aniversário, mas não sei se ela recebeu. Você sabe por acaso?
Recebi a certidão que você mandou, cópias e tudo mais. Te agradeço muitíssimo. Mandei mais um papel aí para o processo de reconhecimento. Quando esse papel chegar é que poderá dar entrada nos demais. É um não acabar de papéis!
Esperamos estar aí no Rio dia 21 de dezembro. Devemos ir para a casa da Aurora e depois para Teresópolis. Confirmaremos. Estou muito ansiosa para ver os netinhos e um pouco temerosa dos meus próprios filhos. Realmente, ás vezes, tenho dúvidas de que me queiram como eu realmente sou ou que me entendam.
É muito estranha a vida !
O Tom e a Vera foram a São Paulo de passeio ou para ver empregos? Ela não me disse com clareza nada. Espero que possam resolver bem essa situação, porque penso que para eles será muito decisivo o lugar e o tipo de trabalho que ele possa conseguir.
Por aqui estamos trabalhando bastante e também, este mês que passou, com bastante atividades sociais e culturais. Conseguimos recentemente formar um grupo mais ou menos congênere e conversamos e nos divertimos de vez em quando. Mas tivemos que “formar” o grupo. Não havia antes. É uma associação cultural, mas informal, onde se dança, canta, conversa, come-se e bebe-se. Já temos o local e tudo. Muito interessante. Vamos rezar para que dure e não se desfaça!
Quando você estiver ou falar com os filhos de-lhes notícias minhas – pretendo passar o Natal em Teresópolis. Gostaria da presença deles e sua, se estiverem dispostos a ir. Se tem outros planos, que me digam, para que eu não espere em vão. Talvez tenham outras idéias a respeito. Eu vou para lá, porque para mim e melhor do que ficar em hotel, e na casa da Aurora não tem muito espaço, e não tem telefone.
Abraços para você e lembranças a todos aí.
Até breve,
Maria Luiza
P.S. Soube do problema de saúde da Aurora?
Posadas, maio 11, 1983.
Queridos Rubens e Ana Maria,
Espero que estejam bem e que tenham passado uma boa Páscoa, que já parece tão longe! Passamos por Foz muito rapidamente. O ônibus chegou muito tarde e por isso não os procuramos. No dia seguinte cedo cruzamos, para poder chegar aqui ainda de dia. Foi bastante sacrificado, mas enfim, chegamos!
Depois começamos a nos instalar e agora já estamos trabalhando. Eu na minha tradução para a Nova Fronteira e nas classes particulares, e Alberto no seu escritório. A coisa não está nada fácil, mas dá para quebrar o galho. Os argentinos são indestrutíveis e otimistas natos. É impressionante.
Queria que vocês soubessem que as crianças ficaram contentes com a visita que lhes fizeram. Isso lhes deu um alento emocional de que necessitavam. Afinal, por mais que estejamos “adultos” sempre precisamos do pais, ainda que não gostemos da idéia de dependência afetiva.
Quando saí do Rio, Vera e Tom pareciam bem. Ele ia ter um aumento e estava mais animado. Vera estava freqüentando regularmente as aulas da universidade e Maria Helena se recuperava da pneumonia. Gabriela e Marcelo estavam bem. Marcio e Julieta estavam trabalhando bastante e animados. Marcio estava buscando outro emprego, porque o atelier ia fechar. No Sesc eles estão bem – Ana e Toninho pareciam melhor, mais calmos e se compreendendo mais. Creio que a análise lhes está fazendo bem. É um analista que cobra bem barato e dá mais apoio terapêutico do que teoria analítica, o que me parece ótimo. Toninho estava dando algumas aulas e Ana também. As crianças estavam ótimas. A única coisa que me preocupa é o parto da Ana, que vai ser uma terceira cesariana, com ligação de trompas. Queria te perguntar se não podias escrever para ela, para saber se ela não vai precisar de ajuda financeira. A maternidade onde a Julieta vai ter o filho é excelente, mas é um pouco fora do alcance da Ana. Seria maravilhoso se você pudesse conversar com ela a respeito e ver se dá para ajudá-la a ter uma boa experiência de parto. Ela está meio apavorada, porque da última vez sofreu muito no hospital e o Daniel saiu de lá com aquela terrível infecção nos olhos. Eu espero estar em São Paulo para o parto, mas financeiramente não posso arcar sozinha com toda a despesa. Talvez você e eu pudéssemos, juntos, ajudar.
Bem, espero que me escrevam e me contem de vocês, das crianças e da vida aí em Itaipu. Nosso endereço é Av. Roque Perez, 402 – 1º piso, Posadas, 3300, Misiones. Um grande abraço para vocês e votos de muita paz e felicidade.
Sinceramente,
Maria Luiza
- Houve um interregno ou então não guardei as cartas. O fato é que em maio de 1981 fui sozinho para Foz do Iguaçu já separado de Dona Elza, mas meio compromissado com Ana Maria, que lá chegou no final desse ano.
- Vera, Tom e os filhos Gabriela, Marcelo e Maria Helena moravam no Rio. Marcio, casado com Anita Julieta já esperavam a primeira filha, Amaragi.
- Ana, casada com Antonio Gomes, era mãe do Ricardo e Daniel e esperava a chegada do Luciano.
( ATÉ AQUI, FOI INCLUIDAS NO BLOG)
25/3/80
Rubens,
Recebemos o telegrama e já telefonamos para o teu escritório. Mandamos a carta para as autoridades suecas e um cheque para Márcio. Espero que você tenha podido mandar o cheque de março e mande o de abril também. A partir de maio eu mandarei todos os meses 300 dolares. Agora foi por uma questão de emergência.
O Roberto tinha ficado em levar-te os papéis no dia seguinte ao que saímos do Rio. Não sei que pode haver acontecido. Em todo o caso, o telefone dele é : 2361748, já lhe pagamos pelo serviço, por isso não precisas pagar mais nada.
Vou te dar o telefone de uns amigos nossos aqui em Posadas para que possas deixar algum recado e de onde eu posso telefonar para aí, também: Hugo ou Cristina Mazzanti, Cólon 78 – 2º piso, (3.300) Posadas, Missiones. O telefone é : 8138.
Espero que tudo se resolva, com o carro e com o Márcio.
Abraços
Maria Luiza
P.S. O Roberto Siqueira trabalha na Auto Escola Pirajá, rua Siqueira Campos, 143 loja 79.
- Posadas fica no interior da Argentina. Após 1981 ouvi muita referência ao entroncamento Encarnación – Posadas, onde Paraguai e Argentina constroem a hidrelétrica de Yaciretá.
Posadas, 19/8/80
Prezado Rubens,
Agradeço de coração o cuidado que você tem tido em nos manter informados, acerca das crianças e seus problemas e buscas de soluções.
Por aqui coincidiram uma série de compromissos tanto sociais quanto de trabalho, e por isso tardei um pouco em responder aos seus dois últimos envios de notícias.
Achei a carta para as autoridades inglesas muito boa, e bastante delicada até, tendo em vista a nossa justa indignação. Espero que eles reconsiderem o fato devidamente.
Quanto à Regina, realmente não entendo porque ela faz tantas trapalhadas. Sei que os bancos ingleses demoram a atender, mas não é possível que ela não tenha dinheiro sequer para ir ao banco reclamar. Enfim, alegro-me que você lhe mande algum dinheiro, porque acredito que esteja com pouco, mesmo. Mas, também, porque não tenta arrumar um trabalho de tempo parcial, como baby-siter, ou ajudando numa loja, ou algo assim? Francamente, não a entendo; parece que prefere passar mal a enfrentar o trabalho.
Quanto ao Marcio, estou um pouco desapontada com ele. Escreveu-me sugerindo que lhe pagasse o aluguel de um apartamento para que pudesse viver como gosta – isto é – só. Mas agora não é possível. Será que não se dá conta de que, só para que voltasse, gastei mais de 70 mil cruzeiros? Dinheiro que poderia ter dado à Ana que luta com tanta dificuldade!
Acabamos este mês de mandar 600 dólares para Vera, em cheques de 300 cada! Eu não posso ficar toda a minha vida trabalhando e gastando principalmente em função dos filhos. Já são muitos anos que venho fazendo o possível, e as vezes, o impossível para facilitar-lhes a vida. Se dei o apartamento para Aurora é porque ela trabalha há mais de 10 anos e nunca me pediu nada. Além disso, tem menos possibilidades, devido à sua saúde e condição de estudo. Os outros podem, se quiserem, aproveitar as potencialidades que têm e as oportunidades vividas e por viver. Gostaria que você conversasse com o Marcio sobre isso. Eu fico um pouco sem jeito, assim, de longe, de dizer tudo isso a ele. Mas, a verdade é que não tenho mais reserva de dinheiro. Tenho agora que esperar que se acumulem os aluguéis. Há sempre imposto e despesas para fazer, e nem todo o dinheiro que entra se constitui em lucro. Sei que Ana Maria precisaria de mais ajuda agora e sofro por não poder dar-lhe. Mas, justo quando eu poderia ela não estava em condições de querer ou aproveitar. Agora, ela terá que esperar.
Estou ainda muito preocupada com o advogado, que não escreve, não manda notícias e me mantém numa angústia permanente. Também a minha certidão não veio. Acho que o René não está interessando pelo problema, e eu aqui estou atrasando meus papéis de radicação por isso! Resultado, tenho que dar aulas particulares, porque oficialmente não posso estar trabalhando!
Alberto e eu estamos vivendo do que ganhamos e o pouco que havíamos economizado foi para a Vera. Não acho justo. Acho que já é tempo de cada um dos filhos buscar sua verdadeira independência e parar de ver os pais como caixas registradoras. Sei que eles nos estimam, mas quero vê-los independentizar-se para seu próprio bem futuro e para descanso do meu espírito.
Rubens, se você puder dar uma palavrinha com o René, eu ficaria muito grata. Já estou terminando os exames médicos e preciso urgente de tal certidão, para dar entrada no processo de radicação. A certidão precisa vir com um carimbo do Consulado Argentino do Rio.
O trabalho para o Alberto tem aumentado e ele está animado, inclusive com as perspectivas de poder ganhar um pouco mais. Mas, a coisa é lenta. Mais rápido é gastar do que ganhar!
Espero que Marcio tenha se lembrado de dar à Ana, mil cruzeiros que deixei com ele, para esse fim. Também deixei na casa da Aurora um vestido para Ana. Quando posso atravessar a fronteira, vou ver se lhe mando pelo correio alguma roupa mais. Tenho pensado muito nela e gostaria de saber se está tudo bem com ela.
Seria difícil você telefonar para o Dr. João Carlos e perguntar a ele se já foi a Teresópolis? Porque deixamos um bilhete para ele lá e também encarregamos o Jorge de pagar todos os impostos atrasados e atuais da casa. O novo telefone do João Carlos é 2526569 e ele só se encontra depois das 5 da tarde, ou então, na casa dele, lá pelas 10 da noite : 2451165. Ficamos dois dias tentando telefonar daqui, mas não conseguimos a ligação. É um horror!
Espero que tudo esteja bem com vocês. Se a Vera, chegando, quiser ficar em Teresópolis, tem que avisar o João Carlos e apanhar com ele a chave que Ana deve ter deixado com a Aurora para que esta a levasse ao escritório do advogado. Até lá, o problema de água, em Teresópolis, já deverá estar resolvido.
Sempre que você quiser ir a Teresópolis, combine com o João Carlos. Nós lhe deixamos a casa para usar nos fins de semana, mas não creio que ele esteja indo lá. Quanto ao pagamento do clube, o talão ficou com ele. Espero que esteja em dia!
Diga ao Marcio que lhe vou escrever. É que achei mais urgente escrever para você primeiro. Lembre a ele que ainda tenho que mandar 300 marcos para aquela senhora na Alemanha. Tudo isso são coisas que pesam. Agora ele tem que fazer um pouco de sacrifício até poder desfrutar plenamente de sua liberdade.
Um abraço meu e do Alberto e lembranças à Elza.
Agradecidamente,
Maria Luiza
-As “crianças” eram Marcio, com 20 anos e Regina com 25. Ao voltar da Suécia, Marcio foi preso pela polícia aduaneira alemã. Estava sem dinheiro. Foi “adotado” por uma família alemã, por uma semana, e colocado em um avião em Dusseldorf. As despesas foram ressarcidas pela mãe, Maria Luiza. Na Inglaterra, não o deixaram telefonar para a irmã, Regina, que deveria ter ido ao Barclay’Bank, onde havia dinheiro depositado em nome dele! Resultado : foi deportado como indesejável. Deu-me grande trabalho limpar a barra junto às autoridades. Ele foi absolvido e recuperou o direito de ingressar naquele país.
Posadas, 9/10/80
Prezado Rubens,
Recebemos suas duas cartas, sendo a última a que fala da morte da Vitória e da chegada da Vera dia 11.
Aprecio muitíssimo toda a atenção que você está dispensando à casa em Teresópolis e aos outros assuntos meus. Não sei se a esta altura, já que as cartas demoram muitíssimo, você já tomou providências definitivas.
Quanto à casa de Teresópolis – o problema da água, há que verificar bem. Antes de voltarmos para cá, o Jorge havia dito que a entrada de água da rua tinha sido fechada. Já foi reaberta? E se foi, e a água não sobe para as caixas, será problema da bomba de água? O vazamento ou infiltração poderia ser verificado por alguém recomendado pelo Luís, já que foi ele que construiu a casa. Não sei se ele está indo a Teresópolis, mas creio que sim, porque tem obras lá. Costuma ir sozinho aos sábados, e às vezes volta para o Rio no mesmo dia. Anda com problemas parecidos com os teus no matrimônio. Ou pelo menos andava. Não sei se ia se interessar pela casa, mas penso que seria interessante consultá-lo. As telhas, o próprio Jorge pode recolocar. Basta comprar as que faltam ou se romperam. Quanto à pintura realmente só pensava nisso para 1981. Ando meio curta de dinheiro e qualquer coisa é uma despesa enorme. Como paguei todos os impostos atrasados e pintei a geladeira, mandei consertar a vitrola – que nem sei se está funcionando – não queria fazer nada que não fosse absolutamente necessário.
Outra coisa a ver com o João Carlos é o “carnet” do Clube. Se ele pagou as mensalidades depois de julho. Há que pagar isso. Podemos mandar para você, por cheque, o necessário. Também há que verificar as contas de telefone. O João Carlos dispõe dos aluguéis dos apartamentos. Se puder daí pagar tudo, muito bem, se não você me avisa e mandamos em cheque do Bradesco.
O dinheiro do Jorge temos mandado através do Carlos. Você o tem visto? Ele, nessa época, costuma subir de vez em quando.
O problema da certidão deve ser que o René não encontra o João. Eu vou tentar escrever-lhe, mas sem muita esperança. Vou ver se escrevo também ao Eduardo. Esse é mais organizado e é capaz de saber o cartório exato. Por enquanto vou dar entrada com os papéis que tenho. Se não resolver, acrescente a eles a certidão mais tarde. É uma burocracia infernal e estou há dois meses fazendo exames de saúde e indo a diferentes repartições policiais. !!!!
Preocupo-me com o Marcio, porque penso que está regredindo emocionalmente aí no Rio. Sempre tive a impressão que o Rio é um elemento negativo para o caráter dele. Talvez se pudesse mais tarde pensar na possibilidade dele trabalhar parte do dia e, quem sabe, experimentar viver em São Paulo, não sei. Ele não me escreveu mais e isso me magoou, de certa forma.
Quanto a você e a Elza era de esperar-se. Lamento, mas quando não há solução, temos que encarar a realidade da melhor maneira possível. Fiquei contente de saber que tudo vai bem no teu trabalho e que as perspectivas são boas para o futuro. Sua mãe estaria orgulhosa de você neste momento, não é mesmo?
Alberto e eu continuamos trabalhando muito e aguardando o fim do ano para revermos a vocês todos. Ele hoje foi para Oberá, para a inauguração da Feira do Livro.
Abraços e felicidades para a noite do dia 12 para todos – e saudades!
Maria Luiza
-Vitória era uma negra velha, criada pela mãe de Maria Luiza. Foi sua babá. Morou em nossa casa com o marido e, sua neta, por sua vez criada por nós.
-A casa de Teresópolis fica no Vale das Iucas. Um grupo de casas construídas pelo meu sogro, João Alves de Moura. A referida na carta pertenceu ao casal Iracema/Ismael França Campos. Quando “seu” Moura recomprou a casa, por sugestão deles, foi doada a Maria Luiza.
- Jorge era o caseiro.
- Meu casamento com a dona Elza, após dez anos, estava chegando ao fim.
Posadas, 16/10/80
Prezados Rubens,
Teu envio das certidões chegou ontem, quando já me propunha a desistir de tudo. Foi muito alentador! Obrigada mais uma vez.
Minha carta do dia 9 já deve ter chegado aí, suponho. Espero que Tom, Vera e as crianças estejam bem
Agora ainda tenho que incomodar-te com mais um pedido. É o seguinte: a burocracia daqui exige agora o registro (reconhecimento) pelo consulado aí no Rio do meu título de professora.. Estou mandando anexo. Por favor, veja se o René pode fazer isso bem rápido porque é muito urgente. Basta reconhecer no consulado e tirar uma cópia, porque o governo aqui exige o original !!
Não sei quando desfaremos todo esse nó. Quando penso que tenho todos os papéis, me exigem mais coisas!
A Regina escreveu, que está grávida, Mãe do Céu! Diz que está apavorada. Muito mais estou eu! Está trabalhando. Agora penso, que nome vai ter a criança? Ela vai ter filhos com sobrenome diferente. Vai ser engraçado.
Como vai o Marcio? Está tão zangado que não me escreveu mais? Estou perplexa com a atitude dele. Da Europa me mandava as cartas mais lindas, mais gostosas de ler. Agora me abandonou!
Espero que Marcio descubra novas perspectivas aí no Rio, se não vai perder mais tempo ainda e só vai organizar sua vida por volta dos 30 anos!
Bom, abraços a todos vocês e meu especial agradecimento por toda a sua atenção
Maria Luiza
- Vera, segunda filha, chegava de Nova York, para morar mais uma vez no Brasil.
- Regina, em Londres, desfizera o casamento com Steve, pai de Jéssica e se casara com o irmão de Steve, Jim, com quem teve Simon.
Santiago del Estero, 17/10/89
Prezado Rubens,
Você nem calcula a minha euforia ao ouvir as duas boas noticias que você e a Ana Maria me deram. Que maravilha que ela está se recuperando tão bem e que a Vera está por chegar! Eu fiquei tão emocionada que custei quase 24 horas para voltar ao “normal” ! Deo gratia!
Já voltamos de Quimili e gostaria de mandar por escrito o endereço dessa gente que precisa desesperadamente desse Cuprimine : Pedro Fernandez, Calle Yapeyú, 116 – Quimili – CP 3740 – Prov.Sgo del Estero – Argentina. Já pode incluir a fatura (ou cópia) porque a minicipalidade prometeu pagar as despesas decorrentes da aquisição do medicamento. Acho melhor aclarar em dólares o valor da compra. Cada dólar aqui vale 650 austrais + ou -. O câmbio do Paraguai vocês aí devem saber melhor que nós. Quando chegar pede para ligar para mim. O nosso telefone é (085) 21-4396. Acho que não vai dar para a gente ir aí. Esse mês viajamos várias vezes a Quimili por causa da mãe do Alberto, tivemos que ir a Tucuman e a Monteros. Sozinha, a Vera pode tomar avião e não se sacrifica tanto. Nós teríamos que fazer o percurso todo de ônibus e são muitas horas.
Aguardo notícias,
Abraços, saudades e mil agradecimentos!
Maria Luiza
Tigre, 12-06-88
Prezado Rubens,
Se aproxima seu aniversário e amanheci pensando em escrever para você agora, porque se não a carta chega tarde demais para dar-lhe os parabéns. Já cruzamos a barreira dos sessenta e não seria talvez adequado comemorar, mas eu penso que justamente agora é que sabemos apreciar o tempo e a vida, e a benção da saúde e de cada sol que se levanta e se põe e de cada oferta de carinho ou momento de felicidade. Por isso, meus parabéns, que no ano passado não tive tempo de dar-lhe na data auspiciosa.
Lamentei muito que não tivéssemos dinheiro nem tempo para ir a Foz em abril. Tive que deixar dinheiro para pagar os atrasados do clube e parte da obra que tinha que fazer na casa em Teresópolis, além de algo para reinstalar o telefone. Agora Ana me mandou dizer que necessita uma procuração para a Telerj. Isso é uma complicação aqui, mas viemos a B.A. para ver se consigo isso através do Consulado Brasileiro. Acontece que por causa das Malvinas é feriado 2ªfeira e só terça posso começar os trâmites. Não sei se vai dar tempo. Vamos ver. O Alberto também tem de terminar a impressão e encadernação de vários livros e por isso iremos assim que ele receber a aposentadoria. Se você puder se comunicar com a Aurora, diga-lhe que estou providenciando a procuração. O telefone dela é 221-6524 (casa) e 3424353 (trabalho). Ela é que mais rápido se pode comunicar com Ana ou Toninho. Ou senão, mandar um telegrama para Ana (Rua Waldir de Lima e Silva, 65, Teresópolis). Não sei como estão as coisas com a Ana nem com o Márcio. Quando cheguei lhes escrevi, mas até sair de Santiago não tinha recebido resposta. O Marcio estava de mudança. Vi a casa e me preocupei porque ele não tinha fogão e o aluguel é muito alto. Não sei como ele se está se arranjando. A separação dele me surpreendeu porque ele havia voltado para casa disposto a reiniciar a relação, mas parece que não deu pé.
Aqui a temperatura hoje é de 5º e o nevoeiro nos envolve como uma lembrança de Londres. Ontem tivemos um lindo dia de sol com algum frio. Mas hoje esta um dia de inverno prematuro.
Espero que a Ana Maria ( a sua) esteja bem e as crianças também. Ouvimos notícias de neve no Paraná e em Santa Cataria. E aí em Foz, como andam as coisas?
Escreva-me para Santiago (Galeria Tabycast, local 18, Sgo. Del Estero 4.200 Argentina). Quero muito ter notícias de vocês e dos meus filhos, se possível. Devemos estar de volta por lá no dia 22 de junho. Há também o telefone do vizinho : (085) 215399. O código da Argentina não me lembro.
Da próxima vez que viajarmos ao Brasil não vou deixar de visitá-lo.
Saudades, abraços e felicidades,
Maria Luiza
Tigre, 13/3/90
Rubens
Só ontem é que recebi o prefácio do teu livro e o recorte da Folha (com carimbo de 13/02 !!). Fiquei muito contente em saber que o Marcio ia estar presente ao lançamento do teu livro. Agora só falta que plantes uma árvore! Ou já fizeste isso também? Não nos foi possível ir, porque o pagamento do Alberto atrasou muito e no dia em que deveríamos estar viajando não tínhamos um tostão! Ontem é que ele foi ao banco para receber o dinheiro do mês passado. A idéia nossa, agora, é ir pela Páscoa. Vocês estarão aí? Na semana que vem vamos voltar a Santiago. Ai ficaremos até ir para Misiones. O curso foi postergado, porque todos os professores (primário, secundário, universitário) estão em greve até fins de março. A situação aqui ainda são se estabilizou. Está tudo muito tumultuado e confuso. A inflação de fevereiro do ano passado a fevereiro deste ano foi de 14.000%. É isso aí!!!! Uma coisa esquizofrenizante. Te dou um exemplo simples. Uma caixa de fósforo grande custava 50 centavos em Fev. 89. Agora custa 1.350 austrais! Vê se pode. Já se está comendo menos. Não dá para ir ao cinema todo o mês e os remédios estão caros que realmente é uma afronta à população. Uma tira de 20 cafiaspirinas está a 4.800 austrais. O dólar já passou a barreira dos 5.000! Enfim. Nós estamos gastando só em comida e condução para ir ao Tigre de vez em quando.
Esperamos poder ir aí em abril porque vamos tentar não gastar quase. É incrível o aperto em que está a população em geral. Nas primeiras semanas eu nem dormia; estava em pânico. Eles ( o governo) prometem a tal revolução produtiva; mas até agora não veio o dinheiro do FMI nem dos States e a única revolução é a inflacionária.
Eu já sabia que a Globo havia comprado os direito para traduzir o livro do Richard Ulmann. Eu lhes havia escrito pedindo para fazer essa tradução. Bom. Entregaram à Lya Luft. Os “alemães” sempre nos ganham! Ela é muito boa escritora e estou segura de que a tradução está boa. Mas, me deu tristeza, porque eu me correspondi um tempo com o Ulmann e gostaria de ter feito esse trabalh. Enfim…
Alberto está quase terminando sua novela. Eu estou escrevendo uma também, + ou – baseada na vida do meu pai, que é típica; em muitas coisas, das sagas dos imigrantes de princípio do século. Se estiver bem adiantado levo o rascunho para que leias.
Como vai a Ana Maria? Escreva-me ou telefona-me para Santiago. Podes escrever para a residência mesmo : Peru 197 – Santiago del Estero 4200. O nosso telefone é 214396 ( Entrada a Santiago 085). Assim a gente confirma a possibilidade de nossa viagem!
Não desanimes de escrever os contos ou crônicas. Você tem uma forma de escrever bastante direta, compacta, simples mas contundente.
Parabéns pelos esforços,
Maria Luiza
-Richard Ulmann, biógrafo de James Joyce. Maria Luiza sonhou a vida inteira em doutorar-se com uma tese sobre Joyce. Não deu !