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Uma data como tantas. Mas, para mim, com um significado especial. Nesse dia, em uma segunda-feira, no ano cristão de 1951, às 17 horas, na Catedral Presbiteriana do Rio de Janeiro, na rua Silva Jardim, 23, ao pé do morro de Santo Antonio, ao lado da Praça Tiradentes, perante uma centena de amigos e parentes, com a cerimônia conduzida por dois pastores : Reverendos Amantino Adorno Vassão e Antonio dos Campos Gonçalves, Maria Luiza Basso Moura e eu, Rubens Nogueira convolamos núpcias. O casamento durou onze anos. O amor e seus frutos duram para sempre. Ela faleceu em 10 de março de 2007. A vida dela daria mais de um romance. O texto abaixo ela publicou no livro que escreveu em 1994. É do seu pai, João Alves de Moura, o qual ela amou e também foi amada com profunda paixão.
T R A V E S S IA
Maria Luiza Alba
Recife, 1 de junho de 1941.
Laurinha, minha vida muito adorada:
Juntamente com a tua cartinha muito querida, datada de 26 de Maio, recebi uma outra da Mãezinha com essa mesma data, e hontem á noite uma desta mesma procedência datada de 30 de Maio.
Fiquei muito triste por saber que meu querido e grande amor se encontrava doentinha e ainda por cima de tudo isso à volta com as cacetísimas provas parciaes.
Tadinha…de quem é pequenina e tem que estudar muito embora dodói.
Agora minha vida adorada toma muito especial cuidado com tua alimentação. Expulsa do pensamento o desejo malévolo dos chocolates e outros explosivos que taes. Não te iludas nem deixes iludir minha vidinha. Tu terás sempre que sofrer um pouco desse órgão e conseqüentemente para que o fígado não te venha a embaraçar só um regimen alimentar inteligentemente orientado te colocará indemne.
Vejo, infelizmente, que a doença te priva de uma certa quantidade de prazeres entre os quaes o cinema ocupa o primeiro plano, mas tem muita paciência e cautela, pois, como sabes, esta última e o caldo de galinha magra nunca fizeram mal a ninguém.
Que tal as tuas provas? Foram todas razoaveisinhas ou alguma delas desceu de categoria para a classe das sofriveisinhas?
Não te aborreças querida, nas próximas provas poderás demonstrar todo o teu capricho de boa estudante, todo o teu esforço em prol dessa riqueza incomparável que é o saber, e, então, elas serão muito boazinhas.
Fiel ao programa que venho mantendo desde que cheguei a Recife, aproveito esta lindíssima manhã de domingo para vos escrever. Não tenho feito aos dias de semana, porque, minha vida adorada, tenho andado abafadíssimo com uma serie de empecilhos que as autoridades locaes me têm creado. Fiz esforços verdadeiramente titânicos para que a inauguração da casa se verificasse amanhã dia 2 de Junho e não consegui. Os obstáculos surgidos foram de molde a impedir esse meu grande desejo. Já tinha minha passagem marcada para dia 5 de Junho e começo a recear que não poderei utilizar-me dela. Podes bem imaginar, minha queridinha, como tudo isto me tem abalado os nervos. Fumo desbragadamente e faço os mais desesperados esforços para não perder o “controle”, desenvolvendo uma dialectica elevada e macia junto às autoridades para que da minha explosão não resultem conseqüências de certo modo desastrosas que compliquem mais a situação. Infelizmente não se pode dizer tudo quanto se sente. Já o dizia Raimundo Correa.
Adotando, todavia, uma tática serena e conjugando todo o meu sentimento e fibra de lutador, não abandonarei a luta. A vida é a própria luta e lutaremos enquanto ela existir. Não perdi ainda as esperanças de vos abraçar e beijar muito no dia 11 ou 12 de Junho, cumprimentos à Aldinha, Isaura e filha, Maria e Santinha etc, etc.
Um grande e muito saudoso abraço de muitas e muitas saudades com beijos afectuossíssimos de teu pae que muito e muito te adora.
Muitos e muitos carinhos,
Motta.
Qual o filho ou, como neste caso, filha, não gostaria de receber uma carta nestes termos? O livro “Travessia” é um depoimento sofrido de uma mulher sofrida, um pouco real, um pouco ficcional sobre a vida do seu pai, sua mãe, e de si mesma, escrito com destemor, em linguagem nobre. Como ela resume : “ Nem herói, nem vilão. Apenas um homem que acertava às vezes e se confundia outras, como todos, um homem de grandes sentimentos, grandes gestos e grandes equivocações, como tantos outros. Um homem, afinal. Um amigo” . O livro, publicado em 1994, fora do Brasil, está disponível para quem desejar tê-lo. Este escritor online dispõe de alguns exemplares e terá prazer de enviá-lo, sem custo, a quem se interessar.
Leia, leia - êsse é o caminho, creia!