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As cartas não mentem – jamais. É o que dizem as ciganas, as cartomantes, a música popular. Eu, particularmente, sempre gostei de escrever e receber cartas. Que me lembre, das milhares que recebi e das milhares que já escrevi, não houve uma, uma sequer que não me emocionasse. “Quando o carteiro chegou, com a carta na mão …”
Em 1946, comecei a trocar cartas com a professora Haydèe Marçal e nunca mais parei. Dela guardei dezenas, em papel de seda, cor azul, muito lindamente escritas. Até que, depois de casar, em 1951, Maria Luiza e eu decidimos nos desfazer das lembranças epistolares. Ela guardava dos namorados, brasileiros e estrangeiros uma caixa cheia de cartas, bilhetes, com fotos e fitas. Juntamos tudo e queimamos. Que loucura!
Mais tarde passei a guardar tudo que me chegava às mãos: cartas, bilhetes, postais, recortes, tudo, tudo que significasse comunhão, comunicação, afeto, amizade, momentos… “A vida a gente vive, a gente escreve”, disse Luigi Pirandello, o genial italiano, autor de tantas obras primas, uma delas, “Seis personagens à procura de um autor”. Sem talento para criar personagem acabei sendo de mim mesmo, vivendo e escrevendo. Um memorialista resistente, insistente, à procura de algo que não sabe o que seja. Não me lembro por que pedi a alguém, (quem meu Deus) que datilografasse as cartas recebidas ao longo de mais de cincoenta anos. Quando isso aconteceu? O papel está amarelado, os clipes enferrujados. E a cartas dirigidas às minhas irmãs, à minha mãe ( de sua prima Hermínia Brejão – uma linda mulher que me fazia sonhar na puberdade) as destinadas à Nena, minha irmã ainda adolescente, à Neide, outra irmã, quem me entregou essas cartas? A pessoa que datilografou usou meu papel timbrado com o seguinte endereço: Rubens Nogueira, rua “B” 158 – Morro Xavier, telefax (0242) 22-1322, Caixa Postal 92.282, Itaipava – Cep 25.740, Petrópolis – RJ. Aposentei-me e ali me refugiei, de março 1991 a junho de 1992. Em 1989, trabalhando na Itaipu Binacional, em Foz de Iguaçu, publiquei meu primeiro livro : “1948”, cujo conteúdo são as cartas que eu enviava para a família, eis que saí de Sorocaba em Fevereiro daquele ano e fui enfrentar a vida no Rio de Janeiro. Em 1986 minha irmã Hilda me entregou uma caixa de papelão com dezenas e dezenas de cartas. Lembro-me que pedi a um editor amigo uma avaliação. Após algum tempo ele me respondeu que aquilo não dava livro nenhum. Era um precioso acervo mas só interessava “ a você e aos seus” – disse ele. Que besteira! Deu, sim um livrinho, bem recebido pelos “meus” e por outros mais. A literatura epistolar existe desde sempre. Sou leitor assíduo das cartas do apóstolo Paulo, do padre Antonio Vieira, de ilustres escritores de vários idiomas, de simples memorialistas, e sempre com muito proveito intelectual, cultural, sociológico, pois essas manifestações íntimas são fontes de muita informações.
Na inocente troca de cartas entre primos, irmãos ou amantes, documentos guardados desde épocas imemoriais, somente a omniscencia divina poderia avaliar o que essas confidencias e expressões afetivas contribuíram e sempre contribuirão para iluminar estudos e teorias de sociólogos, historiadores e antropólogos.
Ao dar início à divulgação das “Cartas”, não me preocupei muito com a ortografia, cronologia ou notas explicativas. Somente algumas, aqui e ali. As cartas valem por si mesmas. São relatos do cotidiano, são vida, vivida , sentida, sofrida, usufruída. Retalhos da realidade. Os que as escreveram, alguns já não pertencem a este mundo, outros estão vivos e se os seus olhos reencontrarem palavras já há muito esquecidas hão de reviver, como eu revivo momentos únicos. Cartas são como as pesquisas eleitorais, retratos da hora. Os pensamentos, as reflexões foram sinceras ou oportunistas? Na vida, como na arte nem tudo é como parece – e aqui volto a Pirandello : “Assim é se lhe parece”. Leia e comente por favor…
Piracicaba, 23 de abril de 1949.
Querida Nêna :
Louvado seja o nosso Pai de Amor. Que ele cubra todos vocês com as suas santíssimas bênçãos e proteção.
Nós estamos com a puríssima graça de Deus, e por isso vamos bem. Como deve saber ficamos 18 dias na casa da mãe do Pedro, ansiosos por ter novamente a nossa casa. Agora já a temos, que aliás, é bem grande e bonita.
A Ercília e o Pedro já estiveram aqui e vão bem
A tia Margarida está aqui, agora, tratando a Ercilinha. A menina não assenta o pezinho direito, no chão. Não sei o que seja. Ela está tomando aplicações de raios verdes, e com isso, graças a Deus já está quase boa. Esperamos que quando ela completar 1 ano, que será dia 11 do mês que vem, ela já esteja andando. Vamos ver.
Você tem recebido notícias do Rubens? Ele vai bem? E a Dª Hortência, Neide, Milton, Walter, Nice e Reny, vão bem? Escreva-me logo, sim? Estou ansiosa por saber de todos. Há! … esqueci de perguntar do “velho”. Ele vai bem?
Falarei um pouco de mim agora. Eu vou bem. Gostei imensamente de Piracicaba. A cidade é bonita e é repleta de estudantes. Possui recantos maravilhosos. Nós moramos perto da linda caxoeira de Piracicaba. Já ouviu falar, nela? É um encanto. Perto de casa tem, também um bosque. Você precisa ver que lugar adorável. Atravessando-o vê-se o rio, calmo, repleto de barquinhos, e lanchas a motor. Tem um trampolim, que está sempre cheio de banhistas, um campinho de bola ao cesto e voleybol. Parece um pedacinho de S. Vicente. É o nosso passeio favorito. Meu e da Maria Thereza. Andamos de barco, e lá passamos horas e horas esquecidas, na contemplação daquele lugar que, parece, saído ele de um conto de fadas.
Outro dia houve batismo da sua Igreja aqui perto de casa. Olhei pra ver se via alguém daí, mas infelizmente nada vi.
Quando houver batismo aqui, novamente, dê um jeitinho de vir, você aproveita e fica uns dias aqui em casa.
Parece incrível, mas ainda não tenho namorado. Diga a Neide para não rir não. É verdade. Tenho, agora, três “flirtes”. Um é engenheiro mas não sei o nome dele; outro é dentista formado, muito bonito, simpático e chama-se Luiz, e o outro é futuro médico e chama-se Milton. Diga à Reny, que esse último é filho de sírio. É o mais lindo dos três. Que você acha que devo fazer?
Diga a Neide e a Reny que me escrevam. Eu ia escrever a elas também, mas as novidades vão todas aqui. Você sabe que para escrever três cartas fica-se muito sem assunto. Espero que elas me escrevam.
Diga ao Milton, que todos os Miltons são umas uvas. Mas que ele é a mais doce de todas. Ele que me escreva também.
Bem, Nêna, acho que chega, por hoje. Mamãe e todos nós enviamos abraços a todos daí.
Eu em particular, abraço a todos com saudades. E você aceite um milhão de abraços e muitos beijos da amiga sincera.
Neyse
E.T. A mamãe manda dizer a Da. Hortência, que arrume as coisas dela e venha pra cá. E vocês façam o mesmo. A casa é grande e cabem todos.
Mais um abraço.
Neyse
Nosso endereço : Rua Luiz de Queiroz, 399 – Piracicaba
São Paulo, 18-10-49
Bondosa Ilda,
Recebi sua esperada cartinha a qual alegrou-me muito em saber que sou digno de uma resposta.
Então a nossa velha Sorocaba está progredindo hein? Já possui uma orquestra sinfônica composta de 50 figuras. Isso é formidável não acha?
Pois quando deixei essa cidade, só possuía 3ônibus e 3 bondes. Foi só eu sair daí que melhorou muito.
Você pergunta sobre a minha insignificante vida? Isso é formidável. Se queres saber, pois lá vai a minha memória. Nasci no dia 17 de abril de 1927 na rua D.Arlindo Luz, 44 em Sorocaba. Tive a infância ótima, estudando e brincando. Aos 15 anos comecei a cantar na P.E.D.&, aos 18, fiz uma excursão pelo interior do estado com um conjunto coral, aos 20, fui trabalhar na rádio globo do Rio. Aos 21, voltei a Sorocaba fazer o serviço militar, aos 22, voltei para o Rio em busca de um futuro melhor, que foi quando lhe conheci.
Chegando ao Rio, fui trabalhar na rádio Tamoyo, mas como o ordenado não me era conveniente, resolvi deixar definitivamente o rádio e, trabalhar como viajante, como era a profissão que exercia quando aqui cheguei.
Ao chegar em S.Paulo, vim como viajante. Mais não sei se mereço, ou não, hoje sou, Chefe do Departamento de Propaganda do Estado S.P. E minha memória encerra-se aqui. Está satisfeita? Você pergunta sobre meus amores? É bem interessante. Quero que saibas que sou feliz nos amores. Sabe porque? Porque de quem eu gosto, não gosta de mim. Não acha que isso é ser feliz?
Você gosta de poesia, versos, flores e músicas, não é? Flores não posso lhe mandar, porque não é possível mandar dentro de um envelope. Mas vão dois versos que fiz especialmente para você. Não sabia que gosto muito de versos? E também gosto de compor alguns, simples mas é de coração. Quero que me perdoe em caso não seja de seu agrado, porque você sabe perfeitamente que não sou poeta, não é!
Vicente
Rio de Janeiro, 15 de março de 1990.
Caro Rubens.
Em primeiro lugar quero lhe agradecer por me tornar imortal, e também lhe dar os parabéns pelo lançamento do livro.
Graças a Deus, aqui eu estou me dando muito bem, carregando uma saudade, que quase me mata, mas sem problemas. Ainda não me enturmei mas já fiz bastante amizades. A mãe não gostou muito da minha primeira amizade, ela implicou com o “Jacob” o meu amigo que veio de Belém.
As meninas daqui são muito bonitas e legais. O colégio aqui é muito legal também.
Eu escrevi esta carta inspirando no novo governo.
Rubens espero resposta, contando como vai você, os cachorros e etc…
Com muitas saudades,
Maurício
Médici
Metri
Nogueira
P.S. Para Lurdes e Gigio um abraço e um beijo.
PS: do PS: - Gigio era o cocker inglês Menudo.
Maurício
12/12/89
Dear Grandpa Rubens,
I wrote to thankyou for the wonderful medal you gave me.
And to just say “Hi”. How are you doing “good I hope”. I’m not that good at writing letters so this is what you got. “O” almost forgot I hope your “beautiful” wife gets better soon, and have a Merry Merry Christmas.
Marcelo
São Paulo, 13-11-84
Ana e Rubens :
Espero que estejam todos bem. Aqui vamos indo, Amaraji está bem embora tenha sentido bastante a ausência do Márcio.
Achei que vocês gostariam de ter os folhetos da exposição : como vêem este, foi um ano de muitos acontecimentos e sucesso para a vida profissional do Márcio. Ainda não temos notícias dele, mas estamos torcendo para que tudo dê certo e ele esteja
Abraços a todos.
Anita e Amarají
Foz do Iguaçu, 28 de janeiro de 1988.
Querida Regina,
Fiquei felicíssimo com sua última carta e muito orgulhoso com a mensagem da Jéssica. Vou colocar em uma moldura e pendurar em minha sala, junto com aquele mapa de Wales.
Veja como são as coisas. Há pouco mais de um ano você aparentava não ter qualquer perspectiva e agora está cheia de atividades e planos.
Quando for aí espero que seus sonhos de cultivadora de plantas esteja em pleno andamento, com muito sucesso.
Se tudo correr bem, vamos comemorar juntos o próximo Natal. Nos próximos meses falaremos sobre isso.
Até lá espero que você aproveite o material que estou lhe mandando para uma palestra sobre preservação ambiental em hidrelétrica no Brasil, e de que Itaipu é um exemplo.
Recebi carta de sua mãe esta semana e ela está bem, dentro das dificuldades por que tem passado – problemas de saúde e de dinheiro. Pretende vir ao Brasil em fevereiro ou março.
Também tenho tido boas notícias da Vera, Ana e Márcio. Aliás, Márcio, Anita e crianças virão passar o carnaval conosco.
Filha querida : Que Deus continue te abençoando, ao Jim e às crianças. Algo me diz que tudo vai dar certo para nos encontrarmos no Natal.
Rubens
São Paulo, 8 janeiro 85.
Rubens e Ana,
Desejo a vocês um ano de alegrias, sucesso e saúde. E amor também! Nós vamos indo bem, bastante esperançosas com o ano que se inicia.
Amarají está uma graça, uma moleca subindo em cadeiras, “lavando” roupa e nos dias de sol brincando numa piscininha de plástico que a avó Iolanda deu no Natal. Ela é muito expansiva, onde quer que entre, ônibus, bares, ou na rua, mexe com todo mundo, chamando, dando tchau e outro dia passou a mão no rosto (!) de um senhor que estava atrás de nós na escada rolante. As pessoas riem muito pra ela e ela faz e acontece.
Hoje conseguimos tirar o passaporte e fomos diretos à agência de Turismo (Monarck) que tem um vôo charter para Roma. Lá dei um sinal pequeno nas passagens para segurar o preço delas ao câmbio oficial de hoje porque os preços são em dólares e toda variação sobe o preço. Bom, ficou assim : 1.043 dólares a minha passagem + 174 dólares da Amarají = 1.223, 30 dólares. Isso ao câmbio oficial de hoje (Cr$ 3.244) deu o total de $ 3.968.355. Os 20% da entrada dão o total de $ 793.671 e combinei de acertar esse valor dia 18 de janeiro.
Achei que esse vôo seria ótimo porque vai até Roma, tendo apenas 160 dólares de diferença do vôo que me deixaria em Madri. A companhia aérea é a “Lan Chile” e vai fazer escala em Madri de onde seguiremos para Roma pela Ibéria. A passagem (reserva) está marcada para 28 de janeiro, saindo de Viracopos às 20:30hs, chegando em Roma às 16:00hs (local). O vôo charter dá uma boa economia em relação ao vôo normal que hoje está em 1.740 dólares ( a passagem da Amarají é calculada sobre esse valor, 10% dele) e se fossemos por ele teríamos pago 1.910 dólares!!!
Márcio ligou para nós dia 6 e está superansioso pela nossa chegada; ao ouvir os gritinhos da Amarají ficou emocionado e pra falar a verdade acho que nós duas estamos na mesma aflição de vê-lo, estar com ele, matar a saudade.
Temos conosco um dinheiro do acerto de contas do Márcio no Sesc e com ele estou comprando um forno para o Márcio porque assim quando ele voltar terá todo o instrumental de trabalho completo e nos dois poderemos até dar aulas de cerâmica aqui em casa. Os amigos compraram algumas peças do Márcio para presenteá-las no Natal e aos poucos as pessoas vão conhecendo o trabalho dele.
Domingo próximo é aniversário do Marcus Philip e é quase certo que iremos lá, Amarají eu e mamãe.
Rubens, agradeço e sou reconhecida a você por essa força tão legal e desprendida que você nos dá. Desejo que ela retome a você em dobro pela vida afora, e quem sabe por nós mesmos, tomara! É uma força de pai mesmo, que gostaria que viesse do meu próprio pai mas acho que ainda não posso contar com isso, pois a gente não se vê há muitos anos e nosso contato esporádico é tão distante! Bom, um abraço carinhoso de nos duas,
Anita e Amarají
PS: Segue uma foto dela que usamos para o passaporte.
Santos, 17 de outubro de 1948.
Estimada Neide,
Escrevo-lhe esta afim de participar-lhe que estive domingo último no Rio, onde me avistei com o Rubens. Passamos a tarde juntos, passeando bastante.
Ele vai indo muito bem de saúde e de emprego, e creio que já engordou um pouco mais. Só tem muita saudade de vocês aí.
Como fiquei de ir sábado até Sorocaba e não podendo realizar essa viagem, envio pelo portador que é meu amigo, uma apólice de seguro e um embrulho que o Rubens me pediu para que entregasse ao Dr.Nilton Vieira de Souza. A apólice é naturalmente para Dona Hortência.
Sendo só, e por aqui hão havendo muitas novidades, despeço-me desejando a todos vocês felicidades.
Do amigo, sempre às ordens.
Carlos
Endereço : Rua 15 de Novembro, 16 - Santos
Santos, 16-07-1950
Minha boa prima:
Hortência, espero que ao receber esta, esteja boa de saúde junto de seu esposo e filhos. É o que de coração desejo. Enquanto nós vamos regular graças a Deus só com muitas saudades de vocês. Em primeiro lugar tenho que pedir perdão pelo meu silêncio. Pois não escrevi antes por não ter certeza do nº da casa, creio que não zangarás comigo. A respeito das crianças tenho a dizer-lhe que não estranharam graças a Deus. Só o que está difícil é casa, o aluguel é muito pesado, dois cômodos e cozinha é para mil CR$ ou mais. Quero ver se arrumo o mais depressa possível, para trazer as crianças comigo. O Chady tem estado aí, tenho muita pena dele, pequeno e ter que ficar longe dos pais.
E a Nena, Neide, ainda não estão noivas, como vão de estudos.
O Rubens esteve aí, passou o aniversário com vocês. Quando escrever para ele mande um abraço. Hortência como vai de amores. A Nercy, está que é preciso ver, gorda e baixinha, a Nilza também. A Nercy está tão prosa, fala pelos cotovelos, não há quem agüente. O Aldo fica que não se cabe com ela. Todo dia tem um sonho para contar a ele. Na praia não tem medo é a primeira que entra no mar, está que é um lambari, sempre falando na vó Hortência, Nena, Nice, Neide, enfim lembra todos. Bem mudamos o assunto. O Aldo tem tido muita sorte com serviço desde que chegamos não parou um dia de trabalhar. Com Dorico, espero que vá bem. O Aldo está com a orelha de Zezé, não pisca um olho de medo de perder o brotinho. E olha lá não é muito difícil. Bem chega de conversa fofa.
Como vai a tia Antoninha. Dê lembranças para ela.
Termino enviando lembranças minhas, do Aldo para Theodoro. E beijos para as crianças, Nena, Neide, Nice e os meninos. E em particular um forte abraço da prima que muito a estima.
Hermínia
Lembrança da Zira para todos.
Endereço : Rua Olavo Olvim, 189
Rio, 29 de outubro de 1949.
Querida Hilda,
Recebi a tua amável cartinha, mas peço-lhe desculpas por não responder a mais tempo, não posso explicar se foi falta de tempo, mas ao mesmo tempo um pouco de descuido. Hilda espero que esta vá encontrar-lhe com saúde juntamente com tua mãe e irmãos apesar de não conhecer-lhes. Eu felizmente vou muito bem. Fiquei boa, estou bem gorda. E você como vai de estudo, bem? Escreva-me contando algumas novidades daí, que eu aqui não tenho nenhuma. D. Jesuína manda-lhe muitas lembranças e D. Maria do Carmo também, ela manda-lhe perguntar quando é que você vem passar aqui. Hilda não repare não, a D. Maria manda-lhe esta caixa de sabonete para você e o talco para a Senhora sua mãe. Aqui termino com um forte abraço desta que muito lhe quer.
Elisa
“Que há mais precioso que a terna
consideração de amigo para amigo”
Paulo
Querida amiguinha,
Eu acabava de jantar e me preparava para “galgar” o morro quando o teu irmão, intempestuosamente me colocou entre as mãos uma carta. Li o subscrito :
“ Ao Benjamin” – Associei logo as idéias…
Já disse alguém que a linguagem humana é deficiente quando procura traduzir os/seus, nossos sentimentos mais sublimes e, aquele que é capaz de expressar por palavras tudo aquilo que sente, certo não possui sentimentos, lá muito elevados. É essa a lógica que encontro para explicar o fato de eu não atinar com uma maneira de externar a sincera amizade que em tão curto tempo floresceu e se tornou tão estável como se fora alimentada durante longos anos de convivência. Fica aqui, o meu muito obrigado pela tua atenção indo visitar o meus pais e pelas elogiosas referências que então me fizeste.
Aqui, deixaste muitas saudades e decorridos já um mês da sua partida, não obstante, todos domingos, invariavelmente, teu nome surge a baila nas costumeiras discussões do almoço. Dona Maria sentiu muita a tua falta e a Zilda me pediu que te enviasse lembranças. Teu irmão vai bem. – No mais tudo normal.
Por tua carta notei que estás disposta e otimista com relação aos teus exames. Antes assim, pois estou com saudades de uma festinha aí na “aldeia” e se tudo correr como eu quero, e eu for também favoravelmente sucedido em meus exames, teremos duas festas – então a farra será “de amargar”. Aguardemos os acontecimentos.
Por hora me despeço enviando recomendações aos teus pais e irmãos.
Espero merecer sempre uma carta tua e te envio um abraço sincero.
Teu amigo,
Benjamin
PS: Benjamin Goldenberg morava na comunidade de Sta.Tereza, mais eu e uma pá de rapazes. Sorocabano, estava no Rio para o vestibular de Direito em Niterói.
Rio, 31-08-49
Sorocaba, 1949
Vicente,
Recebi sua cartinha, a qual deixou-me muito satisfeita, por saber que meus amiguinhos não se esquecem de mim.
De fato, sua carta encontrou-me como a mais feliz das mulheres, pois graças ao bom Deus, gozo a paz tão almejada no mundo.
Nada tenho a desculpar-lhe uma vez que, o que houve foi apenas mal-entendido. Não quero mais que você diga que sua amizade é a menor entre minhas grandes amizades, nada disso, considero-o, tanto como os outros, não há exceção alguma.
Vicente, não vejo razão alguma para você sentir que é o mais infeliz dos homens, ao contrário, deve sentir-se muito feliz, pois na verdade, tem um futuro brilhante.
Atualmente estou estudando muito, costurando um pouco, e é esse o motivo por que demorei em responder-lhe.
Vicente conte-me alguma coisa da sua vida, dos seus amores. Eu nada lhe conto, pois novidades comigo é coisa escassa.
Quando você vier à Sorocaba, não se esqueça de vir visitar-me, pois terei grande prazer em recebê-lo.
Vicente, eu sei que você gosta muito de música, no entanto quero que saiba que Sorocaba agora possui uma Orquestra Sinfônica, composta de 50 figuras. Portanto, quando você vier aqui, vai encontrar nova distração. Eu também gosto muito de música, flores, poesia, mas são poucas as vezes que a elas me dedico.
Vicente, aqui vão alguns versos para você distrair-se.
Vesperal
(6 horas da tarde)
José Lannes
Hora de benção de perdão, de prece,
E é no entanto das que mais afligem
Entardecer. O azul empalidece
Como um rosto na agônica vertigem
Em breve a noite vai colher a messe
Das estrelas. E da cerúlea origem
A alma do vago sobre as almas desce
E as saudades para elas se dirigem
Morreu da luz o fulgurante império
O poente como as ilusões perdidas
Os nossos sonhos vão – se fez cinéreo
E sobre tantas ruínas quando é noite
Virão chorar nas horas esquecidas
As cristalinas lágrimas da noite
Rio, 13 de maio de 1981.
Meu querido Rubens:
Espero que tudo continue bem contigo e que o Senhor te proteja em todos os momentos de tua vida.
Por aqui tudo vai indo bem. Eu e Márcio nos damos bem. Ele, ao menos, parece gostar de ficar aqui e aceita bem meus cuidados com as coisas, inclusive suas, e com ele. Ontem conversamos até meia-noite e, depois, ainda vimos o fim do jogo.
Telefonei para o Edward para saber da Ana, que Maria Luiza estava muito preocupada com ela. Tudo vai indo bem segundo ele. Ana está trabalhando na Secretaria do Estado, a barriga está enorme e terá todas as garantias quando do nascimento do bebê. Maria Luiza enviou Cr$ 15.000,00 para ela através do advogado com quem também falei ontem. Ele confirmou a remessa da carta para Maria Luiza e dinheiro para a Ana.
Tom ligou e disse que está tudo bem. Trabalha muito e está contente.
Eliane teve uma linda menina, Camila, um amor.
De mim só uma notícia: Te amo.
Beijos saudosos da,
Elza
PS : Estamos rezando pelo Papa. Realmente os homens são muito maus.
Elza
December 2, 1989
Dear Grandpa,
How are you? I miss you. I wrote to thank you for the bracelete. I made the !!B!! honor roll the nine weeks at school. I went to Bushgardens. I love you.
Dear Step Grandma,
I miss you. How are you? I wrote to thankyou for the carings. I love you.
Your Granddaughter
Lena
Rio, 17-10-81
Dr. Rubens,
Faço votos que esteja bem de saúde.
Recebi seu cartão com a cópia do CAN do Márcio seu filho.
Prometo que procurarei através dos colegas resolver o problemas. Para acompanhar o processo necessitaria ser informado dos diversos eventos que o Márcio participará. Para isso necessito de comunicação dele ou do telefone que possa avisá-lo de seus procedimentos quando comparecer aos locais designados.
Remeto um cartão com meu endereço. Aqui estamos às ordens.
Como estou na Vila Militar, tenho dificuldades nas ligações com o Centro da cidade e em vista disso qualquer contato por telefone seria melhor da minha residência.
Recomendações à família.
Abraços
Arthur
Arthur Rocha dos Santos
Rua Silva Guimarães, 73/804
Tijuca – 20521 – Rio de Janeiro – RJ
Tel: 208-3105
Classe, 30 de setembro de 1955.
Neide querida,
Com muita saudade quero transmitir-lhe algo, uma vez que não conseguiria esperar até o término das aulas.
Como anda a “Cartilha”? Está caprichando bem?!
É provável que você já tenha sabido da notícia que a Marga me contou, aliás, muito me alegrou.
Poderei contar com a sua companhia na saída?
Hoje sendo sexta-feira é dia de rir bastante, cuidando para não encontrar com nenhum fantasma (Reverendo) que irá se assustar muito e rirá, ainda, muito mais.
Temos que ter bastante cuidado em falar coisas honestas e sérias uma vez que ali, nos estamos extravasando nossos recalques e por conseguinte não queremos revelar nada de mal.
Parece que o papel já está se findando e forçosamente tenho que me desligar. Um grande abraço com “12 milhões” da
Dirce
São Paulo, 10 de março de 1982.
Prezado Rubens,
Paz e Saúde!
Rogo a Deus que tudo esteja bem com você.
Nós, entrando na rotina do início das aulas : ajustando os horários das aulas das crianças com o meu trabalho. Por enquanto, está dando certo, pois estou lecionando a noite e durante o dia fico em casa, fazendo a parte da empregada, raridade, que já está entrando na lista dos supérfluos, para muita gente.
Na semana passada, o Márcio esteve aqui. Ficamos contentes com o bate-papo e o Edward pode curtir mais o sobrinho. Ele é um amor. Na sua despedida, o André Luis ficou triste, já que o “tio Márcio” ia embora. Ele cativa tanto os adultos como as crianças. Com o Emerson, conversaram sobre inglês. Nesta semana, recebemos recado para ele, da Vasp. Comunicamos imediatamente. Ele havia nos contado que estava na Vasp, quando apareceu um casal da Suécia, pedindo informações. Ninguém conseguia entender o que queria e o Márcio conversou com os dois em sueco. Isso impressionou muito o pessoal e gostaram dele.
Agora, estamos aguardando as novidades.
Outra notícia que gostaria de comunicar é sobre a situação da Ana Maria. Como você sabe, fomos fiadores deles na casa da rua Rondinha mais no sentido de amparo moral, contando que eles fizessem a sua parte, já que vivemos do ordenado mensal, sem reservas financeiras.
Já no 1º mês, não pagaram o aluguel, fomos obrigados a pagar e deixar o aluguel na Imobiliária ( o dinheiro que seria para eu sair com as crianças nas férias).
Assim foi sucedendo! Quando pagavam, cada mês era 1 dia, dando um trabalhão para o Edward saber cada pagamento de que mês era correspondente.
Começamos a viver preocupados: quando atrasavam, a Imobiliária nos avisava, chegando ao ponto de avisar que não se interessava mais em alugar a casa para eles, uma vez que não estavam cumprindo o contrato, de acordo com o combinado.
Por hoje é só.
Escreva de vez em quando para o Edward, que seja uma linha, que ele ficará muito feliz, já que o estima bastante.
Um abraço da
Arminda
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SÓ MUDA O ENDEREÇO
Você conhece a frase. Tornou-se um modo delicado de cortar a lamúria. De fato os dramas e as rotinas familiares são parecidas em todas as latitudes. Mas os endereços…foi o que notei ao encontrar, com a datilografia das cartas, uma lista dos endereços dos remetentes. Como segue :
- Ana Nogueira
- Rua Waldir de Lima Silva, 65
- Iucas – Teresópolis – RJ
Rua Ken Sugaia, 105
Itaquera – SP
- R.N.Hill
- Lan Faur, Peny Banc
- Llandeilo – Dyfed - Wales
- Hilda Nogueira
- Rua Souza Pereira, 376
- Sorocaba - SP
- Germano Seidl Vidal
- Rua Barão de Itambi, 42 Cob. 01
- Botafogo – Rio de Janeiro
- Maria Luiza & Alberto Alba
- Av. Rogue Perez, 402
- Posadas – Misiones – Argentina
- Thomas & Vera Stopyra
- 6602 de Leon Ave
- FT. Pierce, Flórida - USA
Rua Faro, 25 – Jardim Botânico – RJ
· 110 Spook Roch RD.
· Suffern – N – 9 - USA
· Alberto & Maria Luiza Alba
· Colon 18 2º Piso
· Posadas – Misiones – Argentina
· Mauricio Médici Metri
· Rua Pompeu Loureiro, 44 aptº 102
· Copacabana – RJ
· Rem. Pedro Luiz Trevisan
· Rua Alexandre Kozientch, 287
· Jardim Social – Foz do Iguaçu – PR
· Stopyra
· De Leon Ave.
· Pierc, FL - USA
· Regina
· Bryn Seion
· FFAIR FACH
· LLANDEILO
· DYFED
· Vera
· 110 Sook Rock Road
· Suffern N.Y
· Maria Luiza
· Los Fresnos 92
· Chumillo
· Santiago del Estero
· Argentina
· Maria Luiza
· Calle Peru 197 1º piso
· Santiago del Estero
· Argentina
· Ana
· Barão de Ubá 372
· Bela Vista – S. Paulo
· Maria Luiza
· Rio Carapachay
· Pequitas – Islãs Tigre
· Argentina
· Regina
· 51, Winchfield House
· Highcliffe Drive S W 15
· Londres
· Ana
· Rua Miracatu 549
· Vila Tupi
· Registro - SP
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Leia, leia – esse é o caminho, creia!