31 de maio de 2010
A ESTRELA SOBE
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HUMOR E NEUROSES À BEIRA DO CAMINHO
Maria Eugênia de Menezes – O Estado de S. Paulo - 28-05-10
Todo dia, Caco Galhardo faz tudo sempre igual. Ou quase. Sai de casa pela manhã e caminha seis quadras até o estúdio em que cria as suas histórias em quadrinhos. No trajeto, observa as vendedoras da Rua Augusta. Uma legião de moças em estado de espera, aguardando a abertura das lojas para mais um dia de trabalho. A situação é aparentemente prosaica, mas foi aí, na trivialidade do cotidiano, que o cartunista encontrou o mote para sua primeira incursão pelo teatro.
Em Meninas da Loja, peça que inicia temporada hoje no Espaço Parlapatões, Galhardo trocou a familiaridade do universo das HQs, no qual atua há quase 15 anos, pelo risco do palco. “Queria fazer outra coisa e esquecer um pouco a lógica das tiras, que é algo que já domino”, diz o dramaturgo estreante. “É claro que existe uma linguagem próxima, mas acho que consegui fazer algo diferente, longe do pastelão.”
De fato, o que se vê em cena pouco ou quase nada evoca da comicidade rasgada de suas criações mais célebres, como Chico Bacon e os Pescoçudos. Sob a condução da diretora Fernanda D’Umbra, Meninas da Loja acaba batendo à porta de um humor mais calcado na ironia e na acidez dos comentários de suas personagens, funcionárias de uma sapataria.
Cynthia Falabella interpreta uma jovem vendedora que, à base de ácido, atravessa a noite em claro e vai direto da balada para o trabalho. A seu lado, surgem Camila (Chris Couto), mulher em constante crise com a namorada, e a gerente Verô (Martha Nowill), uma socialite decaída que, após perder o marido rico, precisa trabalhar para sobreviver. Para arejar o quarteto, o autor convoca a faxineira Dulce (Mari Nogueira)- mais serena e debochada que as demais. Mas não menos cínica.
A plateia encontrará as quatro sentadas na calçada, desfiando um rosário de acusações e lamentos. Sem as chaves, estão impedidas de entrar na loja onde trabalham e, em vão, aguardam a chegada do proprietário que deveria abrir as portas. “Existe um vazio imenso aí. Não queria escrever um texto para tratar de algo épico, grandioso, mas desse tipo de neurose urbana que percebia naquela situação”, comenta Galhardo sobre a falta de sentido em que essas mulheres estão mergulhadas.
Ainda que de forma indireta, a situação carrega os ecos dos vagabundos de Esperando Godot. Tal como no mais conhecido texto de Beckett, a espera por algo que não chega e não se concretiza move a trama. Em Meninas da Loja, porém, essa noção de esterilidade e desamparo adquire ares menos metafísicos.
Não estão mais em questão os impasses do pós-guerra, mas a ausência de significados que pauta a sociedade de consumo e o novo mundo do trabalho. Outra diferença essencial quanto ao clássico de Beckett é a relação que se estabelece entre as personagens. O medo da solidão persiste, mas o vínculo com o outro já não mais se coloca como possibilidade.
Uma noite. O tema pode até resvalar em “grandes” questões, mas o texto de Galhardo não perde a sonoridade quase coloquial e foi escrito em uma única noite. “A inspiração veio de pessoas que conhecia, de cenas e situações reais.”
Como contraponto à narrativa naturalista, Fernanda optou por “brincar com as convenções”. No cenário minimalista de Simone Mina, a encenadora fez intervenções com a luz e o som que ajudam a criar uma aura nonsense. “É uma peça muito estática. Tudo se passa ali, enquanto as mulheres estão sentadas na rua. O espectador assiste, em tempo real, a uma espera que não resulta em nada.”
Em cartaz também com Confissões das Mulheres de 30, a diretora prefere assinalar que, ainda que trate dos conflitos de quatro mulheres, Meninas… não é uma crônica de questões femininas nem é destinada apenas a esse público. “A histeria hoje não é mais um privilégio das mulheres. A peça surge como um retrato de quatro pessoas comuns massacradas pelo cotidiano.”
Meninas da Loja - Espaço Parlapatões (98 lugares). Praça Franklin Roosevelt, 158, telefone: 3258-4449, Consolação. 5ª, 21 h; 6ª, 21h30. R$ 30. Até 2/7
Rua Augusta inspira a 1ª peça de Caco Galhardo
Cartunista estréia na dramaturgia com retrato do universo feminino
Dirigidas por Fernanda D’Umbra, personagens discutem problemas íntimos diante de loja de sapato fechada.
Gustavo Fioratti – Folha de S.Paulo – 28-05-10
Sim, dá para classificar como comédia. E não, não é um texto escrachado. Tudo o que provoca o riso na peça “Meninas da Loja”, primeira investida do cartunista da Folha Caco Galhardo pela dramaturgia, se desfaz por trás de uma melancolia crônica.
A estreia do espetáculo, dirigido por Fernanda D’Umbra, acontece hoje no Espaço dos Parlapatões, em SP.
Se fosse um quadro, estática, a cena inicial já carregaria o enfado de uma rotina que, para muitos, perdeu sentido: uma jovem vendedora, depois de uma noite regada a drogas, recostada à porta da loja onde trabalha.
É cedo, a gerente não chegou para abrir o estabelecimento, e ali da calçada é possível ver, através da vitrine, um mar de sapatos femininos. Há uma distância simétrica e tediosa entre os pares.
Caco “roubou” essa imagem de um trajeto diário. Quando vai de casa para o estúdio, passa pelo despertar da rua Augusta e sempre vê vendedoras esperando o início do expediente.
Outras mulheres chegam para topar com aquela mesma barreira, simples e desesperançosa: uma porta fechada e que, até o fim da peça, vai permanecer assim.
Nos diálogos e conflitos, fica em evidência uma inquietação diante do universo feminino. “O mundo dos homens já está meio decifrado para mim”, diz o autor.
A tensão proposta pelo texto é mínima. Agrava-se quando a gerente chega e constata que perdeu as chaves. Ou seja, as personagens, interpretadas por Cynthia Falabella, Chris Couto, Martha Nowill e Mari Nogueira, vão continuar na calçada. Os diálogos partem então para questões de relacionamento.
Há entraves íntimos entre elas; há problemas deixados em casa também. Uma das vendedoras é mãe de um bebê que está com febre. Outra rompeu, pela enésima vez, o namoro com uma namorada.
Não são situações que tragam traços das charges e tirinhas do cartunista. “Se era para fazer outra coisa, que fosse totalmente diferente.”
MENINAS DA LOJA
QUANDO: qui., às 21h, e sex., às 21h30
ONDE: Espaço dos Parlapatões (pça. Franklin Roosevelt, 158, tel. 0/xx/11/3258-4449)
QUANTO: R$ 30
CLASSIFICAÇÃO: 14 anos
“ Não é adaptação das tirinhas; se era para fazer outra coisa, tinha de ser algo totalmente diferente. O cara que vier esperando um pastelão não vai encontrá-lo. Sou obcecado pelo universo feminino, e isso está na peça; o dos homens já está meio decifrado para mim”
Caco Galhardo – cartunista e dramaturgo
A peça mostra a rotina opressora das vendedoras; acho que muitas atrizes já trabalharam em loja, nós sabemos como é difícil a vida de quem vende sapatos.
Fernanda D’Umbra – atriz e diretora
As reportagens dos dois grandes jornais são boas por si mesmas. Mas para a nossa família têm um sabor especial. Nelas aparece o nome de Mari Nogueira, filha de minha irmã Hilda e do meu cunhado Mário Xavier. Tenho tetemunhado a ascenção da Mariângela, que adotou o nome artístico em homenagem à mãe. Mari me faz lembrar um texto de Marques Rebelo, levado ao cinema por Bruno Barreto, tendo Betty Faria no papel principal. O título? “ A estrela sobe”.
É isso aí Mari Nogueira !
criado por rubens_n
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