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Por Quim
Está calor. Aquele calor de que me lembrava. Pesado, espesso, pegajoso. Aliás o que pega e cola é a minha roupa contra o meu corpo, a minha pele contra as coisas, as coisas contra mim, tudo cola. Olho para os outros e vejo-os brilhantes de pérolas de suor por todo o corpo, claro, mas especialmente nalgumas partes do corpo, como a testa, ou as fontes. Os cabelos colam-se e tornam-se molhados. Decididamente a carapinha é muito mais útil por aqui. Os meus músculos já incharam um pouco, a pele retesou-se e dói um pouco. Tenho de beber água, muita água. Quando desci do avião até nem me pareceu muito calor. Parecia-me como se estivesse numa sauna fraquinha, assim no início, mas só eram 6 da manhã. Depois, ao pequeno almoço em casa do meu amigo Luís, entre pão com manteiga, sumo de ananás, ovos mexidos, mangas e cajamangas, lá me foram explicando que tem estado muito calor e que não chove e que ainda era muito cedo e por isso ainda não fazia muito calor.
Não tinha dormido no avião. Nunca consigo dormir mesmo a sério no avião. Dormito só alguns minutos e chega. Não consigo atinar com aquela coisa de dormir sentado, de boca aberta, a escorrer baba. Por isso estava muito cansado ao pequeno-almoço. Ainda bem que neste país mantiveram o hábito da sesta. Fomos dormir um pouco. Fiquei com o quarto da Nina, a filha do meu amigo Luís. Um luxo para mim, um mimo do Luís. O quarto é um pouco mais fresco do que na sala, Tem uma cama espaçosa e mais uns móveis agradáveis, e tem uma casa de banho privativa e tudo. Tomei um duche que me pareceu lavar-me até à alma, os suores, os maus cheiros, a viagem, as chatices das bagagens que se perderam pelo caminho, do avião ter estado à nossa espera para embarcarmos, da espera inevitável no aeroporto de São Tomé para fazer a reclamação da bagagem. Depois do duche atirei-me para cima da cama e adormeci quase de imediato.
Acordei umas duas horas depois, bastante melhor. Senti calor. Desta vez um calor mais espesso, mais abafado. Pus os pés no chão, enfiei umas chinelas de borracha de enfiar no dedo, vesti uma t-shirt limpa e levantei-me. O movimento teve de ser lento. Arrumei as minhas coisas no quarto, levei o computador para a sala, para escrever. Em frente à porta-janela que dá para a varanda corre uma pequena aragem que faz com que a roupa se me cole mais à pele, de cada vez que pára. Chamamos a esse corredor de ar “o nosso ar condicionado”. Mas aos poucos, vou-me habituando e já começo a sentir energia em mim. Este calor carrega pilhas também. É estranho em mim. Vamos almoçar. De preferência, ao ar livre.
Quim em São Tomé e Príncipe