28 de maio de 2009

UM LIVRO TRANSFORMA A VIDA

ARTIGO PUBLICADO NO JORNAL GAZETA DO POVO EM 20.05.2009

Alan Schlup Sant’Anna

O livro é um objeto mágico, sempre disposto a dialogar com você no momento em que você o abre e que respeitosamente silencia no momento em que você o fecha. O livro conduz a um diálogo entre você e o autor e de você com você mesmo. Ele leva à reflexão e a um aprofundamento do pensamento, retirando-nos temporariamente do entorpecimento que o cotidiano pode impor.
Ainda se lê pouco em nosso país. Segundo a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2007 pelo Ibope Inteligência, a nossa média de leitura é de 4,7 livros por ano para cada habitante. Deste total de 4,7 livros, 3,4 são indicados pelas escolas freqüentadas por 60 milhões de brasileiros e apenas 1,3 são lidos sem indicação da escola. Ou seja, nossos compatriotas quando estão na escola raramente leem algo não solicitado pela instituição e muitos deles, ao sair da escola, simplesmente param de ler.
Isto significa que muitos brasileiros, na verdade milhões, atravessam anos, às vezes toda uma vida, sem nada ler a não ser bulas de remédios ou alguma notícia sensacionalista na Internet.
Lamentavelmente algumas pessoas com este padrão são políticos em altos cargos.
É preciso mudar isto.
Se quisermos uma plena democracia, precisaremos ler mais. Afinal democracia pressupõe escolha e escolha consciente depende de conhecimento. Sem conhecimento haveremos de escolher sempre de modo muito precário.
Não há substituto eficaz para a leitura. Aquilo que alguns chamam de “escola da vida”, ou seja, as experiências acumuladas ao longo da existência, é de valor inestimável, mas de modo algum substituirá a leitura e de modo algum será suficiente nem para governar nem para votar.
No mundo crescentemente complexo em que vivemos, a leitura é indispensável para o viver bem. Ela é um caminho para o crescimento das pessoas e da nação; para a qualidade de vida e para a justiça social.
O hábito de ler é desenvolvido como qualquer outro, ou seja, por repetição. Isto pode ser feito com a ajuda da escola, da família ou sozinho e em qualquer idade.
Quase todos os livros que eu li me tornaram melhor e alguns deles transformaram profundamente a minha vida. Digo, sem hesitação, que a leitura foi decisiva para os resultados que alcancei.
“Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem” escreveu o poeta Mario Quintana.
Cada um de nós pode contribuir para um Brasil que lê mais, que sabe mais, que vota melhor e que vive melhor.
Evidentemente o primeiro passo é o compromisso com a sua própria leitura. Leia e leia publicamente para sensibilizar as pessoas através do mágico poder do exemplo. Não saia de casa sem um livro. Leia na fila do banco, no ponto de ônibus, no ônibus, na praia ou em qualquer outro lugar, mas leia! Se não gostar do primeiro livro que escolher, pegue outro, mas leia!
Por favor, não use ou acredite nas desculpas de que os livros são caros, ou de que não se tem tempo. Não passam de desculpas e você sabe disto.
Existem livros baratos, sebos, bibliotecas públicas e pessoas dispostas a emprestar. Quanto ao tempo, sempre teremos tempo para aquilo que julgamos importante.
Portanto, amigo, arregace as mangas e leia! Temos todo um país a construir e como nos disse outro grande brasileiro, Monteiro Lobato “Um país se constrói com homens e livros.”
Amigo leitor, parabéns por ter lido este artigo e continue lendo, pois a leitura transforma.

Alan Sant’Anna é escritor, palestrante e consultor, autor dos livros DISCIPLINA: O CAMINHO DA VITÓRIA e EQUILÍBRIO EM UM MUNDO DIFÍCIL - EDITORA CIRCUITO. Contato: conexao.consult@terra.com.br

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A QUEM PERTENCE A TERRA?

por Leonardo Boff

No Brasil se discute muito a questão da internacionalização da Amazônia ou a quem pertence essa rica porção do planeta Terra. Sem querer entrar nesta discussão que um dia retomarei, percebo que ela remete a outra ainda mais fundamental: a quem pertence a Terra?
Muitas são as respostas possíveis, algumas verdadeiras, outras insuficientes ou até falsas. Com certa naturalidade poderíamos responder: a Terra pertence aos humanos. Apelamos até à palavra das Escrituras que nos dizem: ”entrego-vos tudo…propagai-vos pela Terra e dominai-a”(Gn 9,3.7). Estranhamente, os humanos irromperam no cenário da evolução quando a Terra estava em 99,98% pronta. Eles não assistiram ao seu nascimento nem ela precisou deles para organizar sua complexidade e biodiversidade. Como pode lhes pertencer? Só a ignorância unida à arrogância os faz pretender a posse da Terra.
Poderíamos ainda responder: a Terra pertence aos seres mais numerosos que a habitam. Então ela pertenceria aos microorganismos - bactérias, fungos, vírus - pois constituem 95% de todos os seres vivos. Segundo o conceituado biólogo E. Wilson um grama de terra contem cerca de 10 bilhões de bactérias de 6 mil espécies diferentes. Imaginemos os quintilhões de quintilhões de micro-organismos que habitam a totalidade dos solos terrestres. Todos estes têm mais direito de posse da Terra do que nós, seja por sua ancestralidade, seja pelo número seja pela função de garantir a vitalidade do planeta.
Ou ela pertence à totalidade dos ecossistemas que servem à comunidade de vida, regulando os climas e a composição fiísico-química do planeta. Esta resposta é boa mas insuficiente porque esquece as relações que a Terra entretém com as energias e os elementos do universo.
Assim, a Terra pertence ao sistema solar que, por sua vez, pertence à nossa galáxia, a Via Láctea que, por fim, pertence ao cosmos. Ela é um momento de um processo evolucionário de 13,7 bilhões de anos.
Mas esta resposta não nos satisfaz pois ela remete a uma pergunta ulterior: e o cosmos a quem pertence? Pertence àquela Energia de fundo, ao Vácuo Quântico, ao Abismo alimentador de todos os seres, à Fonte originária de tudo. Esta é a resposta que os astrofísicos e cosmólogos costumam dar. E é correta. Mas não é ainda a última.
Cabe uma derradeira pergunta: a quem pertence a Energia de fundo do universo? Alguém poderia simplesmente responder: ela não pertence a ninguém, pois pertence a si mesma. Esta resposta é simplesmente uma não-resposta porque nos coloca diante de um muro. Ela nos remete à teologia, a Deus.
Mudando de registro e caindo na nossa realidade cotidiana e brutal dos negócios: a quem pertence a Terra? Ela, na verdade, pertence aos que detém poder, aos que controlam os rmercados, aos que vendem e compram seu chão, seus bens e serviços, água, genes, sementes, órgãos humanos, pessoas feitas também mercadorias. Estes pretendem ser os donos da Terra e dispõem dela como bem entendem.
Mas são donos ridículos pois esquecem que não são donos deles mesmos, nem de sua origem nem de sua morte.
A quem pertence à Terra? Fico com a resposta mais sensata e satisfatória das religiões, bem representadas pela judaico-cristã. Nesta Deus diz: “Minha é a Terra e tudo o que ela contem e vocês são meus hóspedes e inquilinos”(Lv 25,23). Só Deus é senhor da Terra e não passou escritura de posse a ninguém. Nós somos hóspedes temporários e simples cuidadores com a missão de torná-la o que um dia foi: o Jardim do Éden.

O teólogo Leonardo Boff é autor de Opção Terra. A solução da Terra não cái do céu. Record 2009.

criado por rubens_n    13:22 — Arquivado em: Sem categoria

26 de maio de 2009

O BECO - Dante Milano

colaboração de : Daniel Santos

O beco

Dante Milano
No beco escuro e noturno
Vem um gato rente ao muro.
Os passos são de gatuno.
Os olhos são de assassino.
Esgueirando-se, soturno,
Ele me fita no escuro.
Seus passos são de gatuno.
Seus olhos são de assassino.
Afasta-se, taciturno.
Espanta-o meu vulto obscuro.
Meus passos são de gatuno.
Meus olhos são de assassino.

Obrigado Daniel Santos.

criado por rubens_n    15:36 — Arquivado em: Sem categoria

DOIS BURRÕES

* Por Daniel Santos

Jerônimo e Calazans defendem uns trocados na oficina da rua onde moram de favor. Funileiros de primeira, descuidam fama e freguesia: mal ganham para a pinga e o futebol, voltam à gandaia. Não tem jeito!

Vivem, assim, em estado de disponibilidade, ajudam no necessário. Lavam carros, pintam fachadas, capinam terrenos, varrem calçadas … Têm talento para o cotidiano, e basta um elogio que logo abanam o rabo.

Bons e bobos, andam sempre juntos – pau pra toda obra. Se chamam Jerônimo para um cafezinho “de gratis”, Calazans também aceita. E se este ganha uma muda de roupas, Jerônimo quer igualmente vestir.

Raro se esmurram, e quando acontece é depois de beberem na derrota do time do peito. Assim, “alegres”, mais se amparam que se batem e, na volta do estádio, chegam abraçados cantando hinos dos clubes.

Urinam no poste qual vira-latas, antes de aceitarem a janta que alguém sempre oferece, porque, sem comida, morrem. Já pensou! A rua nunca mais seria a mesma sem esses dois burrões – Jerônimo e Calazans.

criado por rubens_n    15:33 — Arquivado em: Sem categoria

FÁCIL DE ENGOLIR

* Por Daniel Santos

Numa tarde infeliz da infância, pouco antes do Natal, soube por acaso que não ganharia a bengala de Bat Masterson de presente … e senti ruir meu mundo de sonhos, onde era o bam-bam-bam do Velho Oeste.

Saí à rua descalço e sem camisa, o ranho escorrendo do nariz de tanto soluçar. Foi aí que encontrei o meu amigo sentado no muro de casa, folgazão, comendo pão com manteiga, cheio de açúcar por cima.

Sentei-me a seu lado, cabisbaixo, como quem pede conivência, e lhe contei do meu desconsolo. Tínhamos a mesma idade, mas com atitude de mais velho passou o braço sobre meus ombros e disse “liga, não”.

Depois, me estendeu o naco de pão, um pitéu que costumávamos dividir quando um dos dois aparecia comendo na rua, e senti na boca que o doce dissolvia a amargura. Abraçados sobre o muro, nos regalamos.

Entendi, afinal: não precisava de bengala, tinha alguém para partilhar a dor, um amiguinho que sabia vencê-la. Como dizia, bastava jogar açúcar por cima e a vida virava um confeito fácil de engolir.

criado por rubens_n    15:29 — Arquivado em: Sem categoria

CORRESPONDÊNCIA - ARQUIVO ELETRÔNICO

Querido Amigo,

Sempre é muito prazeroso ver alguém de casa trazendo um envelopinho com aquela letra já conhecida. Há tempo não necessito verificar o nome do remetente. Espero que o correio também seja eficiente no envio das minhas correspondências ao senhor.
A Luiza já interpreta ter uma pequena coleção dos seus violonistas. Que graça o cartãozinho artesanal que acompanhava o último CD enviado. Lindo!
Obviamente não foi coincidência a sua postagem da “Ilustrada” ao Henrique na semana em que conversávamos sobre o Oscar. Sentimos muito a sua falta para discutirmos a respeito. Já o citamos diversas vezes.
Quanto a sua nova empreitada para 2008, posso dizer que achei bárbaro o assunto das páginas digitadas. A trajetória da Itaipu contada pela ótica de um dos seus trabalhadores é um filão literário. Quantos escreveram sobre o dia-a-dia pessoal dentro daquele lugar? Aliás, assunto bastante atual este que fala de cobras e lagartos dentro das corporações. Fico na dúvida se o assunto chamaria mais atenção pelo caráter literário ou pelo peso enquanto manual de sobrevivência no local de trabalho. Contar isto dentro do momento histórico em que ocorria é uma maneira de não só informar ao leitor o que outros livros históricos já dizem, mas contextualizar o empregado da época de modo à comparar com a situação atual.
Vê-se desta forma que, talvez em menores proporções que o mundo globalizado de agora, já havia a competição e o diz-que-me-diz- que na época em que gerações como os atuais “quarentões” ainda não haviam experimentado tal amargor.
Não sei se a sua intenção era rumar pelo desenvolvimento desta temática, mas seria um momento propício para isto, além de ser algo diferente em se tratando das suas histórias.
Pelas informações que relata, parece já estar bastante adaptado à cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Mas também, quem não estaria?
Quando se comunicar com a Vera e a Gabriela, por favor, envie palavras de carinho por mim.
Meu amigo, a saudade e o querer bem continuam intensos.

Beijos,

Cléia
Em 03 / fevereiro/ 2007

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EM DEFESA DA MEMÓRIA DA FORMAÇÃO DA NACIONALIDADE

EM DEFESA DA MEMÓRIA DA
FORMAÇÃO DA NACIONALIDADE

Nilton Freixinho (*)

Sem embargo do louvável esforço de autores norte-americanos, os chamados “brasilianistas”, de contribuir com obras sobre a formação da nacionalidade brasileira, não se pode silenciar quando, por vezes – por não dispor de fonte atualizadas – são emitidas versões incompletas sobre acontecimentos em que, no passado, se viu envolvido a nação, no quadro abrangente da História.
Este é o caso que ocorre na obra recente “Soldiers of the Pátria : A history of the Brazilian army, 1889-1971”, Stanford University Press, 2004, de autoria do Exército Brasileiro, 1889-1937), pela Editora Companhia das Letras e publicada, no Brasil, pela Biblioteca do Exército, Editora, 2009, Coleção General Benício, v.462. A mencionada obra, quando aborda o episódio de CANUDOS, embora apresente as razões do conflito sob a ótica então dominante na época, o faz dramatizando o desfecho das operações militares, sem, no entanto, oferecer ao leitor externo, as razões religiosas, sociais e econômicas então vigentes no Sertão do nordeste do Brasil, razões que realmente respondem pelo brutal e lamentável desfecho do conflito de CANUDOS.
Em defesa da memória do Exército Brasileiro é oportuno divulgar a verdade histórica do episódio de CANUDOS, por suas raízes abrangentes, em termos de fatores religiosos, sociais e econômicos, transcrevendo, neste artigo, trechos da obra intitulada “ O sertão arcaico do nordeste do Brasil – uma releitura”, Editora Imago, 2003, de autoria do autor do presente artigo.

1. A RELIGIOSIDADE, MOTOR E CIMENTO AGLUTINADOR DA ESTRUTURA SÓCIOANTROPOLÓGICA DO SERTÃO NORDESTINO.
OS “CLÉRIGOS-MÍSTICOS’ E OS ‘MONGES-CONSELHEIROS’. CLIMA DE HISTERIA COLETIVA, MUITAS VEZES REDUNDANDO EM REBELIÃO CONTRA O PODER CONSTITUÍDO.

2. RAZÕES E NATUREZA ESPECÍFICA DA RELIGIOSIDADE NO SERTÃO ARCAICO NORDESTINO. EFEITOS NAS RELAÇÕES COM A IGREJA E COM OS PODERES CONSTITUÍDOS.

No sertão, a religiosidade ganhou dimensões expressivas devido a duas circunstâncias que se associaram. De um lado o sertanejo buscou na religião a compensação das agruras da pobreza de que tomou consciência e a falta de perspectiva para ultrapassá-la de moto próprio. De outro lado o clima de insegurança, decorrente da ameaça periódica do flagelo das secas, levou o sertanejo a amparar-se no sobrenatural, fonte de forças de que carecia para lidar com a calamidade.
Em suma, buscava o sertanejo, na religião, no dia-a-dia de sua vida, conforto e segurança psíquica que fatalmente conduziriam a um estágio de religiosidade radical, quando estimulado por monges místicos, caminho de indisfarçável alienação coletiva.
Está aí configurada a senda do misticismo religioso que dominou as populações sofridas dos sertões nordestinos, desde o Ceará até a Bahia, a partir de meados do século XIX, tendo por epílogo duas vertentes. De um lado o trágico episódio do arraial do Belo Monte, no último decênio do oitocentos, tendo por figura central o monge Antonio Conselheiro. De outro lado o surgimento e o desenvolvimento da Meca do catolicismo popular, Juazeiro, no Cariri, perdurado por cerca de quatro décadas, na transição do século XIX para o XX, tendo por figura central o padre Cícero Romão Batista.
Sociólogos, em estudos recentes, consideram que a religião, inclinada ao radicalismo, constituía o caminho psíquico possível para as camadas pobres e desamparadas do sertão arcaico, cuja memória do flagelo das secas, vivificadas com a ameaça de potencial eclosão, inquietava o viver do sertanejo, em termos dramáticos. Na falta de esperança quanto ao amparo, para vencer os desafios materiais, o apelo ao sobrenatural, eivado de misticismo, configu rou a “religião necessária” aos sertanejos, adaptada às suas concepções de vida e das coisas. Vale dizer, em resposta às respectivas carências materiais imediatas.

3. A IGREJA E O PODER PÚBLICO NO EPICENTRO DA PAIXÃO RELIGIOSA, EM TERRITÓRIO DA BAHIA, AGRAVADA PELA CRISE SÓCIO-ECONÕMICA LOCAL.

A história registra que, na Bahia, a hierarquia da Igreja Católica também fixou-se, em alvo prioritário, para deter a paixão religiosa radical que expandia-se na coletividade sertaneja. Contudo, impõe-se considerar circunstâncias peculiares. Tanto quanto à natureza, do ator-alvo, em termos da Igreja, como diferenças do quadro sóciopolítico caracterizador das duas mencionadas áreas geográficas – Ceará e Bahia.
Tudo isso somado e combinado redundou a eclosão de acontecimentos especificamente peculiares ao caso da Bahia.
Do Recôncavo da Bahia e de Salvador ao vale do São Francisco. No seu curso oeste-leste, incluindo, portanto, geograficamente, o Sergipe, com projeção sobre Alagoas, a crise econômica da produção gerava grandes desequilíbrios estruturais-sociais, provocando desemprego em massa, de mão-de-obra, acompanhando de constantes rebeliões contra o poder constituído, o que se refletia na luta partidária entre grupos políticos. A par do recrudescimento da paixão religiosa radical do sertanejo, em busca de um caminho que respondesse, do ponto de vista psicológico, o que fazia crescer à atração que os monges-conselheiros leigos exerciam desde há algum tempo na região.

4. EM BUSCA DE ENTENDIMENTO COM O ARRAIAL MESSIÃNICO DE CANUDOS, EM ESTADO DE REBELIÃO CONTRA A REPÚBLICA. A MISSÃO DE FREI JOÃO EVANGELISTA DE MONTE MARCIANO – 1895. RESULTADOS.

A Missão, acompanhada do pároco de Cumbe, cidade situada a cerca de 80 quilômetros a sudeste de Canudos, entra no arraial do Belo Monte a 13 de Maio 1895. A praça central, onde se situa a casa do Conselheiro, é envolvida por cerca de mil homens armados de bacamarte, garrucha, facão e outros apetrechos. Ademais, os missionários logo constatam o estado de pobreza dos habitantes.
O Conselheiro os recebe cordialmente. Ao perceber a curiosidade pela Igreja Nova, em construção, os convida a percorrer as obras em curso, prestando informações pormenorizadas.
Então a sós, frei Evangelista falou-lhe sobre a finalidade da Santa Missão. Ali estava com propósito de paz.
No quarto dia, frei Evangelista de Monte Marciano deu início aos trabalhos pregando sobre o dever de obediência à autoridade, destacando que o Sumo Pontífice tinha recomendado a concórdia dos católicos brasileiros com o poder civil. Abordava, então, para a multidão ali reunida, a pedra de toque da Santa Missão, em Canudos. As palavras do frade irritaram o ânimo de muitos presentes. Desde logo inicia-se no arraial messiânico forte propaganda contra a Santa Missão. O povo é incentivado a não mais comparecer. A intriga alastrou-se. Foi espalhado que a Missão estava ali a serviço do governo para abrir o caminho à tropa que viria prender o Conselheiro.
Criou-se ambiente de hostilidade contra os missionários capuchinhos, que já não tinham condições de pregar a Missão.
Frei Evangelista de Monte Marciano, ante tal oposição, resolve suspender a Santa Missão e retirar-se do arraial. O que se concretiza a 21 de maio, sete dias após a chegada a Canudos.
Ao regressar a Salvador, frei João Evangelista do Monte Marciano apresenta ao arcebispado da Bahia um relatório circunstanciado da Santa Missão a Canudos (tipografia do Correio de Notícias, 1895). Desde então o mencionado relatório adquiriu extraordinária importância, por ser um dos raros documentos escritos por quem viu Canudos por dentro quando se organizava para fazer face à repressão.
Na parte final, o relatório emite julgamento e faz recomendações, das quais cumpre destacar três:
- “Encarados o arrojo das prestações e a soberania dos fatos, pode-se dizer que é aquilo um Estado no Estado; ali não são aceitas as leis, não são reconhecidas as autoridades, não é admitido à circulação do próprio dinheiro da República”.
- “Antonio Conselheiro conta a seu serviço mais de mil companheiros decididos, entre os homens, com um número talvez de oitocentos sempre armados; verdadeira milícia em pé de guerra”.
- “O desagravo da religião, o bem social e a dignidade do poder civil pedem uma providência que restabeleça, no povoado de Canudos, o prestígio da lei, as garantias do culto católico e os nossos foros de povo civilizado. Aquela situação de fanatismo e de anarquia deve cessar para a honra do povo brasileiro, para o qual é triste e humilhante que, ainda na mais inculta nesga da terra pátria, o sentimento religioso desça a tais aberrações e o partidarismo político manifeste-se em tão estulta e baixa reação”.
Tudo isso consta do “Relatório Monte Marciano”, entregue ao arcebispado da Bahia em meados de 1895. É lícito admitir que tenha sido dado ao conhecimento do governo da Bahia e do comando do 3º Distrito Militar (Exército) e este, por sua vez, tenha dado ciência ao comando da instituição, na Capital Federal.
O diagnóstico estava feito com a precisão que fatos posteriores comprovariam quanto ao espírito, à natureza e ao vulto da resistência que Canudos poderia apresentar.

5. CONCLUSÃO

Uma apreciação por quem, na infância, em Pernambuco, vivenciou o sertão e os sertanejos; de quem, integrante do Exército brasileiro, como oficial, não se deixou contaminar pelo vírus do jacobinismo florianista; de quem nunca se cansou de proclamar o valor moral do inimigo sertanejo; de quem por seus pendores intelectuais escreveu e publicou, em 1898, portanto logo após a vitória de outubro de 1897, pormenorizado relato histórico sobre a campanha militar, intitulado Ultima expedição a Canudos. Trata-se de homem público que após a “guerra de Canudos” projeta-se no cenário nacional, pelo exército de relevantes funções em seu estado, Pernambuco, e na Federação – Emíldio Dantas Barreto.
Proclama o general Dantas Barreto, em uma de suas obras : “(…) três dias após o ataque final (primeiro de outubro de 1897) não se encontravam ali ( em Canudos) senão destroço dessa imensa população que desaparecera em nome da ordem, da civilização e da moralidade do Brasil”.

Nota – Os tópicos 1, 2, 3, 4 e 5 são transcrição de fonte que foi mencionada.

(*) O autor é Coronel do Exército e Presidente da Comissão Ténica- Cientifica da Sociedade Brasileira de Geografia.

NOTA : Tenho orgulho da amizade que une Rubens Nogueira e Nilton Freixinho. É uma honra tê-lo como colaborador deste blog. Vencendo a modéstia, transcrevo o bilhete que acompanhou o presente artigo:

Rio, 2ª Feira, 11 de maio 2009.

Estimado Rubens,

Certamente, não estaria eu dizendo novidade que “ a História é escrita pelos vencedores”.
Há tempos procurava matéria para ilustrar a tese que esse provedor dificulta quando se está empenhado em buscar “a verdade histórica”, por não dispor da visão dos vencidos.
Deu-me o “estalo de Vieira”. Aí está o controverso episódio de “CANUDOS” para oferecer ao leitor “o lado dos vencidos”, no caso os denodados sertanejos do “Belo Monte”, seguidores do místico Antonio Conselheiro.
Ademais, no fundo e a rigor esta é uma oportunidade para fazer a defesa da memória da formação da nacionalidade brasileira, no brutal e lamentável desfecho do confronto em que a nação viu-se envolvida, em fins do século 19, nos sertões da BAHIA.

Meu incansável estimulador,

Esse é o propósito do recente artigo de minha autoria que submeto à apreciação do experiente escritor – jornalista, Rubens Nogueira, com a esperança de ser honrado com uma notícia em seus apreciados “blogs”.

Com a amizade do

Freixinho

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21 de maio de 2009

UMA ARTISTA NA FAMÍLIA

Se faltava alguma coisa para completar a glória familiar, agora não falta mais. Minha sobrinha Mariângela Nogueira Gimenez brilha, como atriz, nos palcos e na tela do cinema e nos comerciais de Televisão. Tive a oportunidade de aplaudi-la anos atrás no Festival de Teatro de Curitiba. Ela era iniciante, mas já definira seu caminho e adotara o nome artístico: Mari Nogueira, Mari, como era conhecida na cidade onde nasceu, Piedade, estado de São Paulo. Uma pequena urbe, que acaba de completar 169 anos e já foi conhecida como “o vale dos sonhos”, “a capital da cebola” e “o coração do Brasil”. Nogueira, em homenagem à dona Hortência, avó dela e minha mãe.
Semana passada Mari Nogueira, Carmela Paglioli e Rodolfo Arantes estiveram em Piedade, com a peça “Depois de Tudo”, que estava em cartaz no novo teatro Pyndorama, rua Turiassu, 481, Perdizes, em São Paulo. Eu estava em Piedade e me emocionei : com a atuação de Mari Nogueira e com a circunstância de vê-la fazer sucesso em sua própria terra.
A peça de Franz Keppler é baseada no desabamento na obra do metrô de São Paulo em 2007. O título: “Depois de Tudo”. Resumo : “ Uma família de classe média tem a convivência forçada à um único cômodo : o quarto de um hotel. Em 45 minutos o autor sintetiza um universo de problemas sociais e familiares : drama e comédia na medida certa. À Mari Nogueira cabe construir – de forma delicada e econômica – sua interpretação da mãe religiosa na relação com os filhos problema. A fala da personagem de Mari, no final, em diálogo com o filho, provoca fundas emoções. Convence!
Ante-ontem, no Espaço Unibanco, em São Paulo, estreou o filme de curta metragem : “Tereza” e no elenco, Mari Nogueira de novo. Em breve depoimento após o espetáculo em Piedade, ela disse que está avaliando uns três ou quatro novos projetos. Aplausos para a diva da família Nogueira!
Êta nóis…

criado por rubens_n    11:43 — Arquivado em: Sem categoria

19 de maio de 2009

EVANESCENTE

* Por Daniel Santos

A tal mulher, digamos que fosse uma mulher, recebia num velho sobrado entre a antiga rodoviária e o gasômetro. E nunca recusava freguês: precisasse recobrar a chama do desejo, desinibir-se, era só procurá-la.

Nem cobrava! Não em dinheiro. Mas pedia “presentinhos” com voz de caixinha de música, os lábios num gracioso bico à francesa em contraste com o corpanzil esparramado pela cama de dois por dois metros!

Sim, enorme, se bem a disfarçassem a penumbra e a fumaça de ramos de louro que ardiam sob o leito e que ela inalava para invocar arcaicos poderes. Então, chamava. E vinham seis, oito de uma só vez!

Deixavam-se sugar pelas ventosas da hetaira que, dizem, envolvia ainda com vários pares de braços e lábios sumarentos, enquanto a aspereza de sua pele transmitia aos incapazes inédita eletricidade. Era a cura!

Saíam dali felizes para suas mulheres. E assim por várias gerações. Depois, com o metrô, derrubaram toda aquela área, e não se falou mais nela. Esfumou-se com os vapores de uma história ainda hoje inverossímil.

criado por rubens_n    15:09 — Arquivado em: Sem categoria

12 de maio de 2009

FESTA DAS MÃES - UM SÉCULO NO BRASIL

Festa das mães – um século no Brasil

Em 9 de maio de 1959, o jornal “O Globo” noticiava :

“ A PRIMEIRA SOLENIDADE no Brasil tida como Festa das Mães foi rea-
lizada há 50 anos, em Salvador, na Bahia, promovida pelo reverendo Mata-
tias Gomes dos Santos, no templo da Igreja Presbiteriana. Foi a 10 de outu-
bro de 1909. Vive ainda e é presbitério da Igreja Presbiteriana de Lucas, no
Rio, o secretário permanente do Esforço Cristão da Igreja da Bahia, senhor
Joseph Cameron Donald, sob cujos auspícios a festa foi realizada, com a fi-
nalidade de “recordar os carinhos e amor das mães falecidas e honrar as so-
breviventes”. Essas declarações foram prestadas ao Globo pelo Sr. Hélius
Mota, assistente do diretor do Museu Presbiterano, que nos disse ter sido a
Segunda comemoração das mães também na Bahia, no templo presbiteriano
De Cachoeira do Paraguaçu. Foi a 7 de setembro de 1910. Crianças e mô-
ças recitaram poesias alusivas às mães.”

Eu poderia discretear sobre a notícia, porque fui amigo do Hélius Mota e conheci o presbítero Donald. Quem sabe, outro dia. Na capa dessa edição “O Globo” dava uma manchetinha : “D.Jaime consagrará Nossa Senhora Aparecida como mãe dos brasileiros”.

criado por rubens_n    15:06 — Arquivado em: Sem categoria
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