EM DEFESA DA MEMÓRIA DA
FORMAÇÃO DA NACIONALIDADE
Nilton Freixinho (*)
Sem embargo do louvável esforço de autores norte-americanos, os chamados “brasilianistas”, de contribuir com obras sobre a formação da nacionalidade brasileira, não se pode silenciar quando, por vezes – por não dispor de fonte atualizadas – são emitidas versões incompletas sobre acontecimentos em que, no passado, se viu envolvido a nação, no quadro abrangente da História.
Este é o caso que ocorre na obra recente “Soldiers of the Pátria : A history of the Brazilian army, 1889-1971”, Stanford University Press, 2004, de autoria do Exército Brasileiro, 1889-1937), pela Editora Companhia das Letras e publicada, no Brasil, pela Biblioteca do Exército, Editora, 2009, Coleção General Benício, v.462. A mencionada obra, quando aborda o episódio de CANUDOS, embora apresente as razões do conflito sob a ótica então dominante na época, o faz dramatizando o desfecho das operações militares, sem, no entanto, oferecer ao leitor externo, as razões religiosas, sociais e econômicas então vigentes no Sertão do nordeste do Brasil, razões que realmente respondem pelo brutal e lamentável desfecho do conflito de CANUDOS.
Em defesa da memória do Exército Brasileiro é oportuno divulgar a verdade histórica do episódio de CANUDOS, por suas raízes abrangentes, em termos de fatores religiosos, sociais e econômicos, transcrevendo, neste artigo, trechos da obra intitulada “ O sertão arcaico do nordeste do Brasil – uma releitura”, Editora Imago, 2003, de autoria do autor do presente artigo.
1. A RELIGIOSIDADE, MOTOR E CIMENTO AGLUTINADOR DA ESTRUTURA SÓCIOANTROPOLÓGICA DO SERTÃO NORDESTINO.
OS “CLÉRIGOS-MÍSTICOS’ E OS ‘MONGES-CONSELHEIROS’. CLIMA DE HISTERIA COLETIVA, MUITAS VEZES REDUNDANDO EM REBELIÃO CONTRA O PODER CONSTITUÍDO.
2. RAZÕES E NATUREZA ESPECÍFICA DA RELIGIOSIDADE NO SERTÃO ARCAICO NORDESTINO. EFEITOS NAS RELAÇÕES COM A IGREJA E COM OS PODERES CONSTITUÍDOS.
No sertão, a religiosidade ganhou dimensões expressivas devido a duas circunstâncias que se associaram. De um lado o sertanejo buscou na religião a compensação das agruras da pobreza de que tomou consciência e a falta de perspectiva para ultrapassá-la de moto próprio. De outro lado o clima de insegurança, decorrente da ameaça periódica do flagelo das secas, levou o sertanejo a amparar-se no sobrenatural, fonte de forças de que carecia para lidar com a calamidade.
Em suma, buscava o sertanejo, na religião, no dia-a-dia de sua vida, conforto e segurança psíquica que fatalmente conduziriam a um estágio de religiosidade radical, quando estimulado por monges místicos, caminho de indisfarçável alienação coletiva.
Está aí configurada a senda do misticismo religioso que dominou as populações sofridas dos sertões nordestinos, desde o Ceará até a Bahia, a partir de meados do século XIX, tendo por epílogo duas vertentes. De um lado o trágico episódio do arraial do Belo Monte, no último decênio do oitocentos, tendo por figura central o monge Antonio Conselheiro. De outro lado o surgimento e o desenvolvimento da Meca do catolicismo popular, Juazeiro, no Cariri, perdurado por cerca de quatro décadas, na transição do século XIX para o XX, tendo por figura central o padre Cícero Romão Batista.
Sociólogos, em estudos recentes, consideram que a religião, inclinada ao radicalismo, constituía o caminho psíquico possível para as camadas pobres e desamparadas do sertão arcaico, cuja memória do flagelo das secas, vivificadas com a ameaça de potencial eclosão, inquietava o viver do sertanejo, em termos dramáticos. Na falta de esperança quanto ao amparo, para vencer os desafios materiais, o apelo ao sobrenatural, eivado de misticismo, configu rou a “religião necessária” aos sertanejos, adaptada às suas concepções de vida e das coisas. Vale dizer, em resposta às respectivas carências materiais imediatas.
3. A IGREJA E O PODER PÚBLICO NO EPICENTRO DA PAIXÃO RELIGIOSA, EM TERRITÓRIO DA BAHIA, AGRAVADA PELA CRISE SÓCIO-ECONÕMICA LOCAL.
A história registra que, na Bahia, a hierarquia da Igreja Católica também fixou-se, em alvo prioritário, para deter a paixão religiosa radical que expandia-se na coletividade sertaneja. Contudo, impõe-se considerar circunstâncias peculiares. Tanto quanto à natureza, do ator-alvo, em termos da Igreja, como diferenças do quadro sóciopolítico caracterizador das duas mencionadas áreas geográficas – Ceará e Bahia.
Tudo isso somado e combinado redundou a eclosão de acontecimentos especificamente peculiares ao caso da Bahia.
Do Recôncavo da Bahia e de Salvador ao vale do São Francisco. No seu curso oeste-leste, incluindo, portanto, geograficamente, o Sergipe, com projeção sobre Alagoas, a crise econômica da produção gerava grandes desequilíbrios estruturais-sociais, provocando desemprego em massa, de mão-de-obra, acompanhando de constantes rebeliões contra o poder constituído, o que se refletia na luta partidária entre grupos políticos. A par do recrudescimento da paixão religiosa radical do sertanejo, em busca de um caminho que respondesse, do ponto de vista psicológico, o que fazia crescer à atração que os monges-conselheiros leigos exerciam desde há algum tempo na região.
4. EM BUSCA DE ENTENDIMENTO COM O ARRAIAL MESSIÃNICO DE CANUDOS, EM ESTADO DE REBELIÃO CONTRA A REPÚBLICA. A MISSÃO DE FREI JOÃO EVANGELISTA DE MONTE MARCIANO – 1895. RESULTADOS.
A Missão, acompanhada do pároco de Cumbe, cidade situada a cerca de 80 quilômetros a sudeste de Canudos, entra no arraial do Belo Monte a 13 de Maio 1895. A praça central, onde se situa a casa do Conselheiro, é envolvida por cerca de mil homens armados de bacamarte, garrucha, facão e outros apetrechos. Ademais, os missionários logo constatam o estado de pobreza dos habitantes.
O Conselheiro os recebe cordialmente. Ao perceber a curiosidade pela Igreja Nova, em construção, os convida a percorrer as obras em curso, prestando informações pormenorizadas.
Então a sós, frei Evangelista falou-lhe sobre a finalidade da Santa Missão. Ali estava com propósito de paz.
No quarto dia, frei Evangelista de Monte Marciano deu início aos trabalhos pregando sobre o dever de obediência à autoridade, destacando que o Sumo Pontífice tinha recomendado a concórdia dos católicos brasileiros com o poder civil. Abordava, então, para a multidão ali reunida, a pedra de toque da Santa Missão, em Canudos. As palavras do frade irritaram o ânimo de muitos presentes. Desde logo inicia-se no arraial messiânico forte propaganda contra a Santa Missão. O povo é incentivado a não mais comparecer. A intriga alastrou-se. Foi espalhado que a Missão estava ali a serviço do governo para abrir o caminho à tropa que viria prender o Conselheiro.
Criou-se ambiente de hostilidade contra os missionários capuchinhos, que já não tinham condições de pregar a Missão.
Frei Evangelista de Monte Marciano, ante tal oposição, resolve suspender a Santa Missão e retirar-se do arraial. O que se concretiza a 21 de maio, sete dias após a chegada a Canudos.
Ao regressar a Salvador, frei João Evangelista do Monte Marciano apresenta ao arcebispado da Bahia um relatório circunstanciado da Santa Missão a Canudos (tipografia do Correio de Notícias, 1895). Desde então o mencionado relatório adquiriu extraordinária importância, por ser um dos raros documentos escritos por quem viu Canudos por dentro quando se organizava para fazer face à repressão.
Na parte final, o relatório emite julgamento e faz recomendações, das quais cumpre destacar três:
- “Encarados o arrojo das prestações e a soberania dos fatos, pode-se dizer que é aquilo um Estado no Estado; ali não são aceitas as leis, não são reconhecidas as autoridades, não é admitido à circulação do próprio dinheiro da República”.
- “Antonio Conselheiro conta a seu serviço mais de mil companheiros decididos, entre os homens, com um número talvez de oitocentos sempre armados; verdadeira milícia em pé de guerra”.
- “O desagravo da religião, o bem social e a dignidade do poder civil pedem uma providência que restabeleça, no povoado de Canudos, o prestígio da lei, as garantias do culto católico e os nossos foros de povo civilizado. Aquela situação de fanatismo e de anarquia deve cessar para a honra do povo brasileiro, para o qual é triste e humilhante que, ainda na mais inculta nesga da terra pátria, o sentimento religioso desça a tais aberrações e o partidarismo político manifeste-se em tão estulta e baixa reação”.
Tudo isso consta do “Relatório Monte Marciano”, entregue ao arcebispado da Bahia em meados de 1895. É lícito admitir que tenha sido dado ao conhecimento do governo da Bahia e do comando do 3º Distrito Militar (Exército) e este, por sua vez, tenha dado ciência ao comando da instituição, na Capital Federal.
O diagnóstico estava feito com a precisão que fatos posteriores comprovariam quanto ao espírito, à natureza e ao vulto da resistência que Canudos poderia apresentar.
5. CONCLUSÃO
Uma apreciação por quem, na infância, em Pernambuco, vivenciou o sertão e os sertanejos; de quem, integrante do Exército brasileiro, como oficial, não se deixou contaminar pelo vírus do jacobinismo florianista; de quem nunca se cansou de proclamar o valor moral do inimigo sertanejo; de quem por seus pendores intelectuais escreveu e publicou, em 1898, portanto logo após a vitória de outubro de 1897, pormenorizado relato histórico sobre a campanha militar, intitulado Ultima expedição a Canudos. Trata-se de homem público que após a “guerra de Canudos” projeta-se no cenário nacional, pelo exército de relevantes funções em seu estado, Pernambuco, e na Federação – Emíldio Dantas Barreto.
Proclama o general Dantas Barreto, em uma de suas obras : “(…) três dias após o ataque final (primeiro de outubro de 1897) não se encontravam ali ( em Canudos) senão destroço dessa imensa população que desaparecera em nome da ordem, da civilização e da moralidade do Brasil”.
Nota – Os tópicos 1, 2, 3, 4 e 5 são transcrição de fonte que foi mencionada.
(*) O autor é Coronel do Exército e Presidente da Comissão Ténica- Cientifica da Sociedade Brasileira de Geografia.

NOTA : Tenho orgulho da amizade que une Rubens Nogueira e Nilton Freixinho. É uma honra tê-lo como colaborador deste blog. Vencendo a modéstia, transcrevo o bilhete que acompanhou o presente artigo:
Rio, 2ª Feira, 11 de maio 2009.
Estimado Rubens,
Certamente, não estaria eu dizendo novidade que “ a História é escrita pelos vencedores”.
Há tempos procurava matéria para ilustrar a tese que esse provedor dificulta quando se está empenhado em buscar “a verdade histórica”, por não dispor da visão dos vencidos.
Deu-me o “estalo de Vieira”. Aí está o controverso episódio de “CANUDOS” para oferecer ao leitor “o lado dos vencidos”, no caso os denodados sertanejos do “Belo Monte”, seguidores do místico Antonio Conselheiro.
Ademais, no fundo e a rigor esta é uma oportunidade para fazer a defesa da memória da formação da nacionalidade brasileira, no brutal e lamentável desfecho do confronto em que a nação viu-se envolvida, em fins do século 19, nos sertões da BAHIA.
Meu incansável estimulador,
Esse é o propósito do recente artigo de minha autoria que submeto à apreciação do experiente escritor – jornalista, Rubens Nogueira, com a esperança de ser honrado com uma notícia em seus apreciados “blogs”.
Com a amizade do
Freixinho