19 de fevereiro de 2009

BRINCAR COM O LUME

QUIM
Não teria mais de 12 anos e, como todos os pequenos, gostava de brincar com o lume. Os adultos ralhavam comigo cada vez que me apanhavam e diziam-me que “quem brinca com o lume mija na cama”. Mas eu não mijava na cama e, embora entendesse que aquilo era perigoso, não entendia a rigidez dos adultos naquela fobia fera a tudo o que fosse a beleza hipnótica da chama. Por isso continuava a brincar com o lume sempre que podia, à socapa de quem me vigiasse.
Uma vez passei pela cozinha e roubei uma caixa de fósforos, daqueles maiores, que serviam para acender o fogão. Contente, fugi para a quinta com o meu tesouro na mão. Uma vez longe suficiente dos olhares do mundo, agachei-me, abri a caixa, tirei um fósforo e risquei-o na lixa. Fiquei a observar maravilhado aquela chaminha a consumir o palito de fósforo. Quando este se tornou negro de queimado, tirei outro fósforo da caixa e tornei a riscá-lo. Havia tantos! Era bonito o fogo, e era quente e eu podia apagá-lo quando quisesse, mas depressa me cansei da chama pequena. Queria mais, mais intensidade, mais calor. Comecei a acender vários fósforos ao mesmo tempo. Isso permitia aumentar consideravelmente a chama e o efeito que provocava.
Estávamos no Verão, tudo era seco e o calor fazia-se sentir. À minha volta havia muitas ervas secas, daquelas a que chamamos “namorados” porque tiramos as pequenas espigas para atirar à camisola das moças. As espigas que ficarem na camisola são o número de namorados que ela tem. Risquei um fósforo e ateei lume à primeira erva que estava isolada das outras. Fiquei apreensivo a observar a chama a consumir o caule seco, as espigas, até se resumir a umas cinzas negras. Acendi outra e o processo repetia-se. Mas queria mais, a chama tinha de ser mais alta, mais viva. Ateei um molho de ervas.
Soprava uma aragem, daquelas que não damos por ela. Comecei a ver a chama a crescer, a crescer desmesuradamente, a espalhar-se pela erva seca, o barulho do crepitar a aumentar como vindo do nada. O lume já ia mais alto do que eu e eu não o podia apagar, o calor era imenso e eu tremia de medo daquele monstro que não podia controlar. Larguei a caixa de fósforos que tinha nas mãos, como se com isso conseguisse acabar com aquela besta feroz, como se pudesse apagá-la, fazê-la desaparecer. Larguei a correr, o mais que podia, quinta afora até encontrar alguém. Aos gritos, com os pulmões a arder, só conseguia gritar “fogo”, “fogo”.
Os adultos conseguiram dominar o lume dessa vez. Vi-o ser combatido, batido. Tiraram-lhe o alimento em volta, de forma a mingar até que desaparecesse devagar, sem pressa, ao contrário de quando se tinha aceso. Depois que todos se foram embora fiquei ali a olhar. Fumo e negro, foi o que restou, e um odor acre, mau, a morte. Era a primeira vez que via um fogo, que o cheirava. Era diferente das queimadas, era diferente de tudo. E tive medo.
Nesse dia tornei-me mais adulto e menos criança. E criei uma fobia fera a tudo o que fosse a beleza hipnótica da chama."

Quim

criado por rubens_n    13:20 — Arquivado em: Sem categoria

HOMENAGEM A MULHER -

“Rubens Nogueira
escriba memorialista do primeiro mundo

Permita-me manifestar minha solidariedade com sua homenagem à mulher.

"Fora de casa sois pinturas; nos quartos, sinos; santas, quando ofendeis; demônios puros
quando sois ofendidas; chocarreiras no governo da casa e boas donas do lar, quando
na cama" (Otelo, Ato II, Cena I, Iago).

Assim, nesse 8 de março que vem ai, você, escritor emérito, eu, seu leitor com
admiração, e o bardo inglês, prestamos nossa homenagem à melhor criação
de Deus depois do Universo.

Abrs. Rubens”

Eu, Nogueira, ele Pontes. Em comum, do amor às letras, à paixão pela mulher.

criado por rubens_n    13:17 — Arquivado em: Sem categoria

17 de fevereiro de 2009

BONA-CHIRA

Daniel Santos

A mesa no centro da sala – péssimo para quem se envergonha de comer à vista de todos. Por isso, talvez, raros se serviam; ainda assim, com afetada contrariedade, como se satisfação implicasse desconforto.

E era mesa que apetecia, tal a fartura de pitéus. Mas, como ocorre na maioria das festas, também ali mais valia jejuar que encher o bandulho. Ou assim acreditavam os educados no azedume de alguma religião.

No entanto, às tantas, surgiu alguém convidado de alguém. Um tipo estabanado – parecia. Chegou falando alto e cumprimentando mesmo desconhecidos efusivamente, com um sorriso radiante e permanente.

Tagarela como ele só, serviu-se à farta do que bem quis. E repetiu! Sim, repetiu! A cada bocada, uma interjeição gozosa, um elogio aos anfitriões, um esgar quase lúbrico nos lábios. O prazer rompia o dique.

De quebra, fez amigos, contou piadas e até dançou, enquanto os demais mal suportavam tanto bem-estar. Despediu-se, afinal, e lá se foi satisfeito, porque soube tirar da mesa o que ela oferecia. Simples assim.

criado por rubens_n    11:46 — Arquivado em: Sem categoria

UNA MUJER

Em algum tempo passado João Gilberto gravou um CD intitulado João. Nele aparece a música de Paul Misraki/S.Pontal Rios/C.Oliveiri que diz :

“La mujer que al amor no se
Assoma
No merece llamarse mujer
Es qual flor que no esparce
su aroma,
Como um leño que no sabe
arder
La pasión tiene um mágico
idioma
Que com besos se debe
aprender.
Puesto que una mujer, que no
Sabe querer,
No merece llamarse mujer
Una mujer debe ser
Soñadora, coqueta y ardiente,
Debe darse al amor
Com frenético ardor
Para ser una mujer

Louras, morenas, de todas as cores, o mundo é da mulher. Ao aproximar-se o seu dia – 8 de Março – aqui deixo minha homenagem.

criado por rubens_n    11:16 — Arquivado em: Sem categoria

12 de fevereiro de 2009

BIGODE E CAVANHAQUE

DANIEL SANTOS

No dia em que cheguei da escola com um dez em redação, meu pai retrucou “estudante é para estudar” e, em vez de seu abraço, ganhei-o de um amigo, entusiasta e fraternal, que me convidou à casa dele pela tarde.

Talvez quisesse brincar, mas já do jardim defronte à sua porta percebi algo diferente lá dentro: música alta, balões coloridos por toda a sala … O cenário era de festa. Para mim! – anunciou a mãe do amigo.

Festejavam o meu dez na escola, e recebi ali abraços que a família me negara! Mais: no centro da mesa, um bolo de chocolate cravejado com cerejas parecia uma jóia suntuosa e, dele, o amiguinho e eu nos fartamos.

Pois comíamos e pulávamos pela sala como cabritinhos felizes, enquanto os adultos batiam palmas à nossa volta. Da casa ao lado, meu pai a tudo assistia com intrigada expressão e gritou “vá se lavar, seu lambão!”

O espelho mostrou que o chocolate desenhara em meu rosto bigode e cavanhaque, mas além disso o afeto me dera inédita importância. Agora, impertinente e já homenzinho, comi ainda mais bolo. E não me lavei!

criado por rubens_n    10:29 — Arquivado em: Sem categoria

11 de fevereiro de 2009

DOMINGO NA ORLA

O verão está violento. O que mais se ouve é que não há memória de tanto calor. Exagero. O carioca suporta o tempo quente desde 1500. “Rio quarenta graus” é um filme que diz tudo. Num domingo de céu azul que programa melhor do que um passeio pela orla? Obedecendo, é claro as recomendações. Roupa leve, cabeça coberta, caminhar cuidadoso mas determinado : nem muito apressado, como quem foge, nem tão devagar, que pareça preguiça. Ou melhor dizendo: procurando a sombra; das calçadas, das árvores, olhando vitrines, passando os olhos nas manchetes dos jornais nas bancas, uma parada em um bar e outro para um bolinho de bacalhau e um chopinho, um pão de queijo e um chopinho, - do Leme ao Pontal, o que? Pare com isso. Apenas da estação do metrô do Cantagalo, pela nossa Senhora de Copacabana até o Posto Seis, apreciar a faina dos pescadores e conhecer ali a estátua de Dorival Caymmi, páreo duro em popularidade com a do poeta Drummond pouco adiante, em frente à rua rainha Elizabeth ( da Bélgica, viu?)

criado por rubens_n    11:05 — Arquivado em: Sem categoria

ANTE-DILUVIANA

DANIEL SANTOS

O temporal desventrava a cidade – o homem viu da janela. A verruma das águas erodiu o lago da praça até irromper um rio subterrâneo com igual fúria do que anseia se expandir, e se há oportunidade …

A fauna abissal veio, então, à tona e, em meio ao completo desastre, ele percebeu que uma senhora olhava-o do banco da praça, através da chuva. Firmou a vista e, com sobressalto, reconheceu-a.

Era ela, a tal excêntrica que não lhe correspondera à paixão décadas atrás, quando deixava já bem claro: pretendia apenas a publicidade de si num infatigável teatro de sedução que lhe reforçava poder e fascínio.

Agora, quase esquecida, emergia do passado em meio ao dilúvio, sem a soberba de outrora. Ou não? Enquanto cismava, ela subiu ao prédio e tocou a campainha. O homem espiou pelo olho mágico, quase gritou.

Uma naja faiscava os olhos no corredor e, ao adivinhar sua presa do outro lado, deu o bote, chocou-se contra a porta! O homem caiu para trás. Só aliviou-se ao vê-la debandar, rumo às profundas de onde viera.

 

criado por rubens_n    10:59 — Arquivado em: Sem categoria

5 de fevereiro de 2009

GLÓRIA SOLITÁRIA

Dr.Silvio RenatoRangel Silveira-Superintendente da FIBRA, entrega-me o diploma

Luiz Tadeu Garbi da Silva – aposentado do Banestado e o dr. Rangel

O ambiente não podia ser mais apropriado. Elegante, acolhedor, quase luxuoso. Por demais evocativo: Teatro R. Magalhães Jr., encravado nos domínios da Academia Brasileira de Letras, avenida Presidente Wilson, 203, Rio de Janeiro. O auditório, inteiramente ocupado por homens e mulheres sorridentes, trajados com apuro. No palco, mesa ocupada por duas mulheres e dois homens. Elas, e um deles executivas e executivo do sistema de Fundos da Pensão. O outro, professor Arnaldo Niskier, representava o presidente da Academia. Nas três primeiras filas, devidamente reservadas, sentavam-se quarenta e oito aposentados e aposentadas, escolhidos em todo o território brasileiro, por dezenas de entidades de previdência complementar, em suma, associações que aglutinam os fundos de pensão, conhecidas pelas siglas : ABRAPP, SINDAPP e Instituto Cultural de Seguridade Social. Juntos, cuidam de amenizar a vida de setecentos mil aposentados. Entre os da terceira fila, ao lado de um xará de Florianópolis, Rubens Martins, estava o locutor que voz fala. Todo pimpão, de paletó e gravata, chique no último! Começa o espetáculo! Todos, de pé, cantam o Hino Nacional!
Lá pelas tantas meu nome é chamado. Dirijo-me ao palco; ao meu lado, meu padrinho, o dinâmico Dr. Rangel, superintendente da FIBRA – Fundação Itaipu – BR de Previdência e Assistência Social. Veio de Curitiba, para entregar-me o diploma, no dia Vinte e Três de Janeiro – DIA DO APOSENTADO! Eu, um dos mil e duzentos assistidos pela FIBRA, ela que está completando vinte anos e foi o sonho de José Costa Cavalcanti, realizado por Ney Braga
Na tarde festiva eu rememorava o que foram meus quinze anos de trabalho na maior geradora de energia do planeta. Como diz meu amigo Francisco Casaqueviti : “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás; mas só pode ser vivida olhando-se para a frente”.Houve um momento no qual trinta mil homens e mulheres, sem distinção de nível profissional, cargo ou quaisquer outras diferenças, estavam, em uníssono, construindo a maior geradora de energia elétrica do planeta. Sobreviventes daquela epopéia, qualquer de nós aposentados poderia estar onde estou. Com emoção e saudade, vi, na telinha mental, alguns personagens que já partiram desta para melhor. Homens e mulheres: empreendedores, corajosos, persistentes na concretização de um projeto de engenharia fora dos parâmetros conhecidos na década de setenta: José Costa Cavalcanti (o que iniciou a construção e dirigiu Itaipu nos primeiros dez anos “Eu dei a vida por Itaipu” – disse ele, já doente, quando esteve em Foz, a convite de Fernando Xavier Ferreira, que sucedeu Ney Braga em 1990); Ney Braga, que sucedeu Cavalcanti em 1985: e grandes profissionais como John Reginald Cotrim ( o construtor de Furnas Centrais Elétricas), Wilson de Souza Aguiar (o querido ministrinho); Enzo Debernardi ( Diretor Geral pelo Paraguai, que disse : “Itaipu é um milagre – a evidência de que milagres acontecem); Rubens Vianna de Andrade ( o mister Itaipu – peão dos peões, o inesquecível superintendente, maestro daquela sinfonia de aço e concreto); e outros queridos companheiros: Germano Seidl Vidal, Jucundino Furtado, Emerson Nunes Ferreira, Mario Gibson Barboza, Ameríndio de Barros Fontes, Lucas Nogueira Garcez, Manoel Pinto de Aguiar, Geraldo Dutra, Roberto Schulmann, Silvio Teixeira( que elaborou os primeiros documentos da FIBRA) Armando Madeira Basto; Evandro de Souza Lima; Juarez Moraes Zalesky; Miguel Reale ( que deu formato jurídico ao Tratado de Itaipu); Ataulpho Coutinho irmão de Afrânio, secretario de Estado-governo Carlos Lacerda ( Coutinho formulou o programa de proteção ambiental da Hidrelétrica); a amada mais que amada, Ana Médici, (trabalhou na Assessoria de RP) – por quinze anos foi o centro da minha vida e ainda aquece e ilumina minha existência. E ainda : Amority Carlos Prochmann, Emílio Pucci, Aldemar dos Santos Marués, Aluízio Guimarães Mendes, Haroldo Mattoso Maia, Galdino Mendes Filho, José Roberto Rego Monteiro, Dulce Eboli, Reynaldo Abreu Sodré…quantos mais!!!

PS: As fotos são de Lúcia Veneu Brandão : eficiente secretária, colega na primeira sede de Itaipu, no Edifício De Paoli, centro do Rio.

criado por rubens_n    14:28 — Arquivado em: Sem categoria

3 de fevereiro de 2009

UMAS E OUTRAS

Zuenir Ventura. Um sobrevivente do jornalismo. Trabalha como um foca. Escreve como um mestre. Semana passada desencavou uma entrevista dada por Sigmund Freud em 1926, dois anos antes de eu nascer. Nela, o doutor das almas abre a própria. Aos setenta anos passou a “aceitar a vida com serena humildade”. Freud tinha o maxilar corroído pelo câncer e usava uma prótese. Era o que lhe tirava um tanto da sua serenidade: _ “Detesto o meu maxilar mecânico (…) mas prefiro ele a maxilar nenhum. Ainda prefiro a existência à extinção” – O Globo, 31-01-09.
O Carnaval taí. Os blocos atravancam as ruas dos bairros nos finde. E, na maior sacanagem exibem grande descontração a começar pelos nomes: Ensaia mas não sai; Suvaco do cristo; Não dou meu quati; Já que está dentro deixa; Chupa mas não baba, Imprensa que eu gamo, Simpatia é quase amor, e por aí vai…
No Fórum Social em Belém índio queria apito e muito mais. A Saúde pública distribuiu seiscentas mil camisas de Vênus. Neste verão de nosso desconforto as águas estão rolando desordenadas. Tantos desabrigados! Solidários, os não atingidos mandam ajuda. Daí o que acontece? Desvio, roubo, queima dos donativos, um terror. Por essas e por outras é que lá na minha terra se diz : êta Brasil! : é por isso que essa jósta não vai pra frente! Mas vai sim. O ministro da Educação recebeu sinal verde do presidente Lula para enviar ao Congresso o projeto que torna obrigatório o ensino dos quatro aos 17 anos no Brasil. Hoje, o Estado tem que garantir escola para crianças e jovens dos sete aos 14 anos. ( FSP – 01-01-09)
Com educação e saúde nóis chega lá!

criado por rubens_n    13:21 — Arquivado em: Sem categoria

OPINIÃO

Caro Rubens Nogueira,
Recebi e agradeço o envio do seu Memórias de um Carioca de Coração, bela evocação de lugares, coisas, pessoas e costumes deste Rio de janeiro que amamos. Parabéns pelo texto e pelo sentimento.

Cordialmente,

Maurício Azedo
Presidente da ABI

criado por rubens_n    12:07 — Arquivado em: Sem categoria
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