Ninguém Segura este Pais
José Carlos de Oliveira
“Bem. Agora que sou tricampeão mundial de futebol, espero que vocês me deixem dormir. Trabalhei muito, defendendo e atacando; driblei um bocado de gente e suportei uma porção de caneladas; fiz todos os gols que eram necessários e alguns que ninguém esperava, agora, quero dormir.
O jogo contra a Itália destroçou meus nervos. Aquele passe que dei à Irene Singery, e que ela não aproveitou, resultaria no mais belo gol de todos os tempos. Mas a Irene estava pintando as unhas do pé, de acordo com as instruções de Zagalo, e tive que ir bloquear o ataque italiano até que ela se refizesse. Interrompendo a partida, o juiz ordenou que o massagista terminasse a pintura das unhas da referida atleta. Nessa ocasião, mordiscando uma pedrinha de gelo, perguntei a Irene qual era o drama.
- Estou exausta – respondeu ela. – Este último jôgo está sendo de matar. Além de toda a expectativa dos dias antes, o próprio de domingo está sendo uma loucura.
Gostei também da atuação de Tatá. Quem conhece futebol sabe que Tatá é um craque. Quando êle fez o terceiro gol, gritei :
- Tatá, você está simplesmente assombroso!
A mulher dele, Norma da Rocha Oliveira, sorrindo no banco dos reservas, explicou:
- Meu marido Tatá é um alucinado, adora futebol!
- Quando a Itália empatou, aproximei-me do Emílio e lhe disse:
- Emílio, o negócio está ficando feio. Tenho pernas para correr o tempo todo, mas o Pelé me parece um tanto afobado. Que é que você acha?
- Ninguém segura este país – afirmou ele. (*)
Quando tudo terminou, desorganizamos um festa na Lagoa. Lúcio Rangel, vestido de hippie – camisa amarela, gravata verde, brincos – mergulhou sobre um copo de uísque, dizendo :
- Ninguém segura este país!
Erguemos um brinde ao Brito, que em 15 anos de futebol conquistou apenas dois títulos: campeão de aspirantes pelo Vasco da Gama e tricampeão mundial de futebol…
Se o Tostão com um olho descolado joga o que está jogando, imaginem se ele tivesse os dois olhos descolados!
No decorrer da Copa, e também em obediência à tática de Zagalo, Ana Maria Tornaghi vibrou com diversos grupos, mas principalmente em casa de Isabel e Eduardo Guinle.
Quem demonstrou sangue frio foram os casais Antonio Galloti e Valter Moreira Sales. Tão logo o juiz deu por terminada a partida, eles foram jantar tranqüilamente no Antonino. Nem parecia que tinham feito quatro gols.
Zagalo, emocionado, declarou à rede nacional da televisão:
- Quem ganhou esta Copa não foi o Pelé, nem oTostão, nem o Rivelino. Quem ganhou esta Copa foi o vatapá dos Monteiro de Carvalho!
Segunda-feira, duas horas da tarde. Uma verdadeira multidão está sentada no restaurante Degrau. Brandindo copos de chope, no auge da alegria cívica, todos gritam:
- Ninguém segura este país!
E eu fico imaginando que Ninguém era um jogador da Itália, que quando nós já estávamos nos 4 a 1, o técnico deles sugeriu:
- Vai lá, Ninguém, e segura esse país!
Mas o juiz não deixou Ninguém entrar.
E agora, que já vos dei a Taça Jules Rimet, espero que me deixes dormir”.
(*) Pois é. Foi assim o sucesso da frase que eu criei, em uma reunião de craques da publicidade. Carlinhos de Oliveira, com muita ironia, escreveu o artigo acima. O Emílio que ele cita era o Presidente Emílio Garrastazu Médici. A frase era: Ninguém segura o Brasil.
Médici modificou-a na entrevista ao “O Globo” logo após a vitória do Brasil.
Rubens Nogueira
Ninguém me segura