ANO DE DRAGÃO
É no cinco de fevereiro que ele começa, por aqui. Mas não se trata de festejar uma nova virada de século ou de milênio. Pelo calendário budista, estamos no ano 2.543, bem avançadinhos! Ano de dragão é ano fortíssimo na hierarquia dos signos do zodíaco chinês e com dragão não se brinca. De todos os signos, representados por animais como o galo, o porco ou o cavalo, o dragão é o único imaginado pelo homem, o que lhe confere uma força extraordinária. Ele reaparece a cada doze anos e passa por um ciclo de cinco elementos: água, ar, fogo, terra, metal. O atual é de ouro e só estará de volta daqui a 60 anos.
Temos mais é que festejar essa tradição do desfile do dragão, conhecida no mundo inteiro. A manhã está linda, clara e de céu azul sem nuvem. A rua du Temple está fervendo. Na frente, como convém à norma de todo desfile, estandartes coloridos são levados por jovens. Em seguida, vem uma comitiva de respeitáveis senhores, de ternos vestidos. E logo aparecem os primeiros dragões, cada um de uma cor, todos cobertos de lamê e lantejoulas douradas, que formam as escamas de seus corpos volteantes.
O som é dado por um poderoso tambor e alguns pratos metálicos, marcando um ritmo forte. Ele ressoa pela rua estreita, nos prédios muito antigos, apertados uns contra os outros. As janelas se abrem, as pessoas espiam e o cortejo avança. Então, lá embaixo da rua, aparece o grande dragão, o pai de todos, ágil e imponente, avançando devagar num movimento sinuoso e ritmado. Maravilha!
Outros estandartes se seguem, com grupos representativos de associações. O cortejo cresce e a gente avança com ele. A rua du Temple é longa, cheia de lojas de chineses. Ali se vendem bolsas, cintos, jóias de fantasia, produtos importados, manufaturados na Ásia. No atacado e no varejo. Uma boa parte das fachadas guarda ainda nomes franceses. Outras ostentam signos asiáticos.
Os velhos lampiões de ferro foram decorados com belas lanternas de cor laranja. As lojas estão enfeitadas e abertas, os comerciantes estão lá, com suas famílias. As crianças são lindas e aproveitam para correr umas atrás das outras, fazendo graças e brincadeiras. Nas calçadas, há tabuleiros com balas, bolos de arroz, tangerinas, pistache e amendoim com casca para a gente se servir.
Um ritual começa.
Aparece um cavalheiro vestido e maquiado como figura de teatro chinês tradicional. É o Rei, acompanhado por uma moça linda, igualmente vestida dessa maneira. Ela deve ser uma princesa e leva uma bandeja com presentes, doces embalados em celofane e papel dourado. Eles são recebidos pelos comerciantes com sorrisos e cumprimentos.
No alto da porta de entrada de algumas lojas há uma espécie de buquê feito de tangerinas, alface e fitas vermelhas. Um dos dragões menores, na verdade um dragãozinho, porque formado por apenas duas pessoas, um adulto e uma criança, deve saltar bem alto e abocanhar a oferenda. O desafio não é fácil. Mas acaba dando certo, porque pela grande goela do dragão passam duas mãos. Todos os dragõezinhos se empenham e, depois da façanha, entram nas lojas e cumprimentam todo mundo, com muito riso e brincadeira. Afinal, são eles, os dragões, os portadores de felicidade e bons negócios. E nessa rua isto conta muito!
E o Rei e a Princesa continuam a fazer suas visitas protocolares, cumprimentando, oferecendo os presentes de bons augúrios e, possivelmente, agradecendo a colaboração dos comerciantes, sem o que festa não haveria.
Enquanto isso, o grande dragão avança. Ele é grande mesmo, lindo lindo, todo amarelo, dourado e prateado, com a enorme cabeça colorida e os olhos faiscantes, olhando em todas as direções. Umas vinte pessoas formam o corpo e o fazem colear em passos ritmados pelas batidas dos percussionistas. Esticado, daria mais de cinqüenta metros de dragão.
O espetáculo fica ainda mais bonito quando o desfile chega ao cruzamento da rua du Temple com a Rambuteau. Ali, o enorme dragão se enrola e faz volteios, um foguetório espouca, o tambor e os pratos metálicos marcam o ritmo sem parar. Aplausos, fotos, máquinas filmadoras, televisão, tudo é feito para registrar o acontecimento.
Depois, o dragão e os dragõezinhos, gloriosos, continuam a caracolar pelo bairro. Eu vou atrás, como todo mundo, me dizendo que nunca tinha visto tanto chinês junto nas ruas da cidade. Pudera, Paris é a maior cidade chinesa da Europa.
Então, por tudo isso, viva o ano novo dourado do dragão!
LENY WERNECK
ANO 2000